Sábado, 10 de Março de 2012

Ildeu Geraldo de Araújo – 11/10/2011

 

− Ah, Loló, Margarida foi como uma irmã para mim...

Heloísa estremeceu. Não era chamada pelo apelido há uns trinta anos. Ficou de pé, ao lado do caixão de sua mãe, recebendo os pêsames dos parentes e amigos da família, constrangida por não se lembrar de muitos deles. Sua carreira a afastara daquele universo por tempo demais.

A sala de visitas tinha sido transformada em velório; ficou cheia a tarde toda e boa parte da noite. Lá pelas onze horas ficaram apenas as pessoas mais próximas. Heloisa voltou para junto de sua mãe e contemplou, por um longo tempo, o rosto sem vida, mas envolto numa grande serenidade. Foi chegando, vinda de longe, aquela voz que sempre a guiou e consolou:

... chora não, Loló, não foi nada, deixa a mamãe passar remédio, vou acabar com esses marimbondos, eles vão ver...

... pensa nisso não, filhinha, vai demorar muito, todo mundo morre, mas você ainda é novinha...

... não, Loló, não dá certo. Mãe é mãe e professora é professora. Você vai pra turma da D. Violeta...

... isso é natural, filhinha, você virou moça, o incômodo virá todo mês, mas dura só três dias, depois passa...

... ah, minha filha, que voz linda; canta a Ave Maria pra mim; não sabia que tinha uma cantora em casa...

... que Deus a proteja; cuidado, Loló, Rio de janeiro não é Bom Jesus, cuidado minha filha ...

Heloisa se sentiu muito cansada, sentou-se num dos bancos, recostou a cabeça na parede, fechou os olhos. Suas lembranças continuaram, agora, não como o fluir alegre de um regato, mas como um turbilhão: Rio, São Paulo, Paris, Nova York, Milão... Ela cantando ... vocalizes... agudos impossíveis... árias de perder o fôlego... sono... sonho...

Aplausos, muitos aplausos, ela estava entrando num imenso salão de baile rodeada por damas e cavalheiros ricamente vestidos. Os rostos cobertos por máscaras coloridas, enfeitadas com lantejoulas. Ela usava um longo vestido de seda, ornado com pedras coloridas.  Era conduzida por um homem com uma roupa bizarra, que cantava em francês: “…Voici ma Juliette!” Sabia que tinha de cantar alguma coisa, mas não se lembrava. Felizmente os cavalheiros fizeram uma roda em volta dela, louvando, em coro, sua beleza, dando-lhe tempo de se recompor. Ouviu sua voz aguda e límpida como um cristal, entoar: “Um mundo de encantamento brota diante dos meus olhos. Tudo me fascina e me inebria! E minha alma encantada é impelida para a vida, Como um pássaro voaria para o céu!” Aplausos, aplausos... Estava agora vestida como uma princesa da China, propunha a seus pretendentes três enigmas que não conseguiam resolver e a deixavam sozinha no imenso salão imperial... Sob o ritmo vibrante das castanholas, Carmem evoluía alegremente pela praça de Sevilha: “O amor é um pássaro rebelde”. Aplausos...  Agora era a Bela Adormecida sendo acordada por um beijo...

− Heloisa, Heloisa.

Heloisa demorou alguns segundos para voltar do mundo dos sonhos.

− Padre Carlos está aqui.

Padre Carlos estava junto ao caixão de Dona Margarida. Heloisa permaneceu sentada no banco, observando, pelas costas, aquele homem que fora tão importante em sua vida. Devia estar com quase setenta anos, mas continuava esbelto e aprumado, o que aumentava sua altura. Os cabelos fartos e um pouco longos estavam totalmente brancos. Se estivesse de fraque seria a perfeita figura de um maestro. Heloisa foi para junto dele. Ele continuou olhando para o rosto de Dona Margarida.

− Ela está tão serena.

− Mamãe sempre foi assim. Serena e transmitindo serenidade.

− Uma bela maneira de entrar na eternidade. Ela agora está diante da Verdade. Acabaram-se todas as dúvidas.

−O senhor tem dúvidas, Padre Carlos?

Ele finalmente se voltou para ela e sorriu.

− Quem não as tem, Heloisa? Fé não é certeza. É um risco, uma esperança. Se não parecesse herético eu diria que é uma aposta.

− Sempre pensei em você como uma pessoa que tem todas as respostas, a verdade.

Ele olhou para ela com muito carinho e sorriu.

− O tempo é muito amoroso com você. Está cada vez mais bonita.

− São seus olhos. Seus olhos e a perícia dos cirurgiões. Na vida que escolhi, ou que escolheram para mim, é proibido envelhecer.

− Vejo certa recriminação na sua fala. Fui um dos que “escolheram” sua vida?

− Sem dúvida, mas não estou reclamando, de forma nenhuma. Minha vida tem sido muito boa.

Agora eles estavam praticamente sozinhos na sala velório. As outras pessoas estavam na varanda contando causos ou na cozinha bebendo café ou algo mais reconfortante.  Foram para o canto da sala e se sentaram num sofá.

− E sua vida, Padre Carlos, tem sido boa?

− Como Deus é servido, Heloisa. Há sempre um risco enorme de o padre cair na rotina e se transformar num “burocrata do sagrado”, como diz um colega.

Conversaram longamente sobre a vida e as experiências que tiveram. Padre Carlos estava encantado com a mulher na qual Heloisa se transformara: culta, viajada, sensível, dona de uma aguda percepção da vida e do ser humano. Sem se importar com a prudência lhe confessa:

− Aquele beijo, Heloisa, foi uma experiência indelével em minha vida.

Heloisa levou um choque. Jamais imaginara ouvir isso de Carlos. Ela era jovem e estava apaixonada. O beijo foi um impulso irresistível e as consequências, para ela, foram drásticas. Teve de deixar a segurança e o conforto de seu lar. Abandonar o descompromisso e a irresponsabilidade de uma adolescência apenas começada e se lançar no mundo, na dureza da vida adulta. Tinha menos que 17 anos...

− Pois para mim foi apenas o impulso de uma adolescente boba – mentiu com raiva − tive outros bem mais ardentes e prazerosos.

− É, com certeza você teve.

Ficaram calados. O dia começava a clarear. Ele se levantou, estendeu-lhe a mão.

− Nos vemos antes do sepultamento. Virei celebrar as exéquias de sua mãe.

Ela se levantou, olhou através da cortina de suas lágrimas, para o fundo dos olhos dele, ignorou sua mão estendida e lhe deu um abraço que parecia não ter fim.



publicado por quemcontaumconto às 23:54
Domingo, 04 de Março de 2012

Ildeu Geraldo de Araújo (13/04/2010)

 

Heloísa Bittencourt procurava esconder a ansiedade quando seu carro abandonou a rodovia e começou a subir em direção à pequena cidade onde vivera até os dezessete anos.

Ao receber o convite para cantar uma ária do Messias de Haendel com o coro da Matriz de Bom Jesus, no Domingo de Páscoa daquele ano, ficou curiosa em ver a reação de seus conterrâneos. Ficou imaginando a manchete do “A Voz de Bom Jesus”: “A Grande Soprano Heloísa Bittencourt retorna à sua Terra Natal”. Achou divertido imaginar a improvável manchete: “O Retorno de Loló”.

Loló estava sepultada há muito, no seu lugar surgira Heloísa Bittencourt, uma mulher do mundo, acostumada aos aplausos das mais sofisticadas plateias da Europa e dos Estados Unidos.

Quando avistou a Matriz de Bom Jesus, Heloísa ficou surpresa com a intensidade da emoção que sentiu. Loló a estava esperando...

 

Loló tinha quinze anos quando padre Carlos chegou a Bom Jesus como vigário auxiliar. Tinha acabado de se ordenar, devia ter uns vinte e cinco anos e estava cheio de planos. Sua primeira iniciativa foi formar um coro com as crianças e jovens da cidade. Loló se destacou desde o início, era muito afinada e sua voz era colorida com timbres pouco usuais em meninas de sua idade. Padre Carlos ficou maravilhado, tinha encontrado uma pepita de ouro na primeira garimpada.

A primeira apresentação do coro surpreendeu o povo de Bom Jesus. Não entendiam como suas crianças podiam criar tanta beleza e harmonia, parecia um milagre. Quando Loló cantou a Ave Maria à capella, nem os homens conseguiram conter as lágrimas.

A vida corria feliz para Loló entre as atividades do colégio, as poucas tarefas que sua mãe lhe dava e as aulas de canto com padre Carlos.

Apaixonar-se por ele foi inevitável.

Nos dois anos que se seguiram o talento de Loló ficou evidente, tinha a voz abençoada por Deus. A pepita que padre Carlos encontrara estava se transformando numa jóia que, mesmo em seu esboço, mostrava uma beleza singular. A natureza também realizava seu trabalho. Por trás da brejeirice da adolescente antevia-se uma linda mulher.

 

Certa tarde, Francisco, o sacristão da Matriz, estava arrumando os paramentos e as alfaias litúrgicas e ouvia, com prazer, o coro cantando “Panis Angelicus”. O ensaio acabou, Francisco ouviu o burburinho das crianças saindo e, após alguns minutos de silêncio, o piano de novo, e apenas uma voz, que não poderia ser outra. Ele escutava embevecido. Porém, em poucos minutos, voltou o silêncio. Francisco ficou intrigado. Curioso, aproximou-se e viu, através da porta entreaberta, Loló e padre Carlos se beijando.

Apesar de gostar do padre Carlos, Francisco julgou ser sua obrigação comunicar a fato ao Bispo. Sua Excelência agradeceu o zelo mas explicou que era preciso agir com cautela e, principalmente, manter segredo para evitar um escândalo. Francisco garantiu que, se dependesse dele, a imagem da Igreja não seria prejudicada.

Padre Carlos foi chamado à sede do bispado, onde foi duramente advertido pelo Bispo. Ele se explicou como pode e, por fim, acertaram que ele ficaria fora uns tempos. Voltou a Bom Jesus para pegar umas roupas e partiu imediatamente.

O Bispo pediu a presença dos pais de Loló na sede episcopal. Para evitar que a jovenzinha também viesse a ter problemas, Sua Excelência sugeriu a ida dela para a capital. Prometeu ajudá-la a completar seus estudos, e desenvolver seu talento musical. Ele ficou satisfeito por não ter que transferir padre Carlos de Bom Jesus, pois tinha planos para ele.

Loló recebeu a decisão de seus pais com um sentimento ambíguo: mágoa por ser castigada e ter que abandonar repentinamente sua família, a casa aconchegante, as amigas e, por outro lado, uma grande alegria, pois iria realizar seu sonho de se tornar uma grande cantora. Levaria na lembrança aquele beijo de um amor para sempre gravado em seu coração. Ainda se espantava com sua ousadia em roubar um beijo de Carlos.

Estava cantando ao lado dele, junto ao piano. Após um difícil agudo, ele se voltou para ela com um olhar de aprovação, ela não resistiu, abaixou-se e lhe deu o beijo que vinha povoando seus sonhos. Ele não a repeliu prontamente, paralisado pela surpresa. Retomando o controle, a repreendeu severamente. Irritado, decidiu que não poderiam mais ensaiar sozinhos.

 

Ao entrar na praça da Matriz, Heloísa teve uma sensação estranha. Era Sábado de Aleluia, mas parecia que a cidade continuava na Sexta-Feira da Paixão. Em vez da malhação do Judas, as pessoas formavam pequenos grupos e conversavam com ar compungido, em clima de velório. Suspendeu o vidro do carro para não ser reconhecida e foi direto para casa.

Sua mãe a esperava com uma surpreendente notícia: Padre Carlos tinha sido preso logo após a procissão do enterro, sob a acusação de pedofilia.

Heloísa ficou estarrecida com a notícia. O Padre Carlos que ela conhecera era um homem bom e afetuoso. Não acreditava que ele tivesse se transformado tanto a ponto de molestar uma criança. Seu primeiro impulso foi visitá-lo levando apoio e solidariedade. Queria ouvir, da boca de Carlos, sua versão dos fatos. A mãe de Heloísa não concordou. Não queria a filha envolvida com aquele escândalo. Foi um verdadeiro milagre o caso do beijo não ter se espalhado pela cidade. Era melhor não abusar da sorte.

A apresentação do Messias foi cancelada. O Bispo mandou um padre da Diocese para as cerimônias da Vigília Pascal. Bom Jesus fervilhava de fofocas. Heloísa foi se inteirando dos antecedentes do escândalo. A denúncia do crime fora feita pelo Francisco, sacristão da Matriz durante vinte e três anos. No ano passado ele fora demitido pelo Padre Carlos, que alegou a necessidade de dar oportunidade para outros fieis participarem da vida da Igreja.

A suposta vítima era justamente a filha de Francisco, Regina, que cantava no coro. Suas amigas disseram que, depois de ficar um tempão com o vigário na sala onde ele atendia confissão, ela saiu chorando e foi correndo pra casa sem falar com ninguém. Isto aconteceu no Domingo de Ramos, à tarde. As celebrações da Semana Santa prosseguiram normalmente. Na manhã de Sábado de Aleluia veio a notícia.

Na segunda-feira Heloísa foi surpreendida com uma intimação para ir à delegacia depor. Sua mãe ficou preocupadíssima. Reviveu sua angústia. Ela teria que se mudar. Afinal, como continuar morandoem Bom Jesus, quando todos soubessem a verdadeira razão da partida de sua filha vinte anos atrás?

Heloísa voltou indignada da delegacia. Fora interrogada durante quatro horas porque Francisco, para retirar a suspeita de falsidade provocada por sua recente demissão, acusou padre Carlos de ter abusado de Heloísa, quando esta era apenas uma criança, acrescentando ao beijo detalhes que sua imaginação foi criando. Heloísa não negou o beijo, confessou emocionada que estivera apaixonada por Carlos, mas o defendeu com veemência, ele se portara com retidão durante os poucos anos em que conviveram. O beijo fora iniciativa dela e nada mais acontecera. Padre Carlos não a molestara então e jamais seria capaz de molestar uma criança.

Heloísa ficou uma semanaem Bom Jesustentando, de todas as maneiras, ver Carlos, mas o delegado não consentiu. Pressionada pelos seus compromissos internacionais, teve que partir.

 

Em Roma, recebeu uma longa carta da mãe relatando o desfecho do caso. Matilde, esposa de Francisco, denunciou o marido como autor do crime. Desde os sete anos ele abusava da filha. Matilde sabia, mas se calara, pois não teria como viver sem o marido. Quando a filha ficou grávida, Francisco denunciou o padre para se livrar do problema. Mandou que a filha se confessasse para obrigar o padre a se calar e com seu silêncio aumentar as suspeitas, dando credibilidade à denúncia. Atormentada pela culpa, Matilde contou a verdade.

O Teatro dell’Opera vibrou com a voz cristalina de uma Heloísa Bittencourt mais linda do que nunca, solta, radiante. Uma maravilhosa e doce “Madame Butterfly”.

 



publicado por quemcontaumconto às 22:27
Domingo, 05 de Fevereiro de 2012

 

Um conto de Ildeu Geraldo de Araújo

− Mais uma cerveja?

− A saideira, amanhã tenho que fazer uma palestra no curso de noivos da minha paróquia.

− Paulo, Deus existe? Você acredita realmente nestas fábulas que os padres despejam nos ouvidos das pessoas todos os domingos?

− Assunto complicado para um fim de noite, depois de meia dúzia de Brahmas.

− De Bohemias, Brahma é uma água choca. Não fuja da raia, Paulo.

− Você não acredita em Deus, Alfredo?

− Já vem você com esta mania de responder a uma pergunta com outra. Vou lhe responder: não, não acredito. Não acredito que exista um céu, e lá no alto um velho de longas barbas anotando o que você fez de errado para lhe ferrar quando você morrer.

− Mas neste Deus eu também não acredito. Acho que Deus tem coisa melhor para fazer.

− Desculpe-me, Paulo, esqueci que você é da linha da liturgia da libertação, mistura de comunismo com catolicismo.

− Teologia da libertação que não tem nada com o comunismo. Acredito que Deus se revela no meio do povo, de uma comunidade, que se une para encontrar a felicidade por meio da solidariedade.

− Felicidade, solidariedade, são quimeras. Você já encontrou isso na prática, alguma vez?

− Muitas vezes. Você não imagina a capacidade das pessoas que vivem na pobreza de dividir o pouco que têm. Nos
aglomerados…

− Você quer dizer nas favelas. Favela agora virou aglomerado. Nas favelas só tem traficante.

− Engano seu, Alfredo, noventa e oito por cento dos moradores dos aglomerados são trabalhadores. É lá que moram os pedreiros, os peões de obra, os mecânicos, os bombeiros, as empregadas domésticas. Estas pessoas que tornam sua vida possível, com o seu trabalho. Só que estas pessoas não são notícia. Nenhuma televisão vai mostrar um trabalhador saindo de casa às quatro horas da manhã, andando três horas de ônibus para chegar ao trabalho, carregando tijolos, cimento e areia por oito horas, viajando mais três horas para levar o pão de cada dia para seus filhos.

− Ninguém vai assistir a um programão destes.

− Mas assiste a polícia matando um jovem de dezoito, vinte anos, encontrado com dez pedras de crack no bolso.

− Mais uma?

− A derradeira? Manda descer.

− Você deve estar muito bêbado mesmo para defender traficante.

− Não defendo traficante. Só acho que o combate ao tráfico não vai resolver nunca o problema. Só vai alimentar a violência. O tráfico e o combate ao tráfico fazem mais mal à sociedade que o próprio consumo da droga.

− Não me diga que você é a favor da liberação da droga.

− Você também é, Alfredo. Você não ficou furioso com a lei seca?

− Mas o que tem a ver uma coisa com a outra?

− Álcool é droga, cigarro é droga.

− É. Mas é diferente...

− Por exemplo, por que seu casamento acabou, Alfredo?

− Isto não é da sua conta...

− A Janice é minha irmã e você, além de cunhado, é meu amigo.

− Mesmo assim não lhe devo explicações.

− Não é isso. Não estou cobrando nada. Me corta o coração ver a Janice chorando pelos cantos e você sem rumo na vida.

− E você sabe o rumo: Deus, religião.

− Por que você se separou da Janice?

− Foi ela que me pôs pra fora de casa.

− Se cansou de suas bebedeiras. Lembra do vexame que você deu na formatura dela?

− Eu estava bêbado, esqueceu? Maldita bebida... Eu continuo amando a Janice. Não sei como continuo vivo... Sem ela minha vida acabou.

− Pode ser diferente.

− Tentei conversar com ela, Paulo, ela não quer ver nem minha sombra pintada a ouro. Não a culpo. Ela se cansou de me perdoar.

− Deixe o vício, Alfredo. Reorganize sua...

− Que vício? Eu não sou alcoólatra. Você bebe tanto quanto eu.

− Bebo não. Tomo umas cervejas de vez em quando. Você bebe todo dia. Quando seu filho nasceu você estava caindo de bêbado, lembra?

− Você sabe ser cruel, hein Paulo? Jogar na minha cara o pior vexame da minha vida.

− Me desculpe, Alfredo. Você admitir que é viciado é o primeiro passo para resolver este problema.

− Ta bom, sou alcoólatra e daí? Vai me mandar pro AAA?

− É uma boa idéia, tem dado certo para muita gente. Mas existem outros tratamentos. O importante é você querer sair dessa.

− Não quero outra coisa, Paulo. Não quero outra coisa.

− Waldemar, traz a conta.

− Quer que anote, Alfredo?

− Não Waldemar, estou fechando a conta.



publicado por quemcontaumconto às 10:17
Sábado, 14 de Janeiro de 2012


 

 

Ilustração de José Paulo das Neves

Publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais

Edição no. 1.338 - setembro/outubro 2011

 

  

 

 

− Não carece de três pra levar quatro reses, gente; eu levo sozinho.

− Tá dispensando nossa companhia, Zé Maria?

− Não, sô Turíbio, mas ir o senhor, o sô Crispinzinho e eu tangendo essas quatro rezes, não tem cabimento. 

− A gente quer dar um passeio.

− Então, eu fico. Serviço aqui é que não falta.

− Você vai, crioulo. Arreia logo esses cavalos que não temos o dia todo.

Ainda resmungando, Zé Maria arreou o baio do Turíbio, o alazão do Crispinzinho e uma eguinha ruça pra ele. Continuava não entendendo pra quê aquela comitiva pra levar uma vaca velha e três novilhos pro matadouro da Colônia Santa Izabel.

Saíram do Engenho Seco lá pelas 7 horas. O dia estava claro e fresco. Era um bom dia para uma cavalgada. Subiram a cava do capão de aroeira ouvindo a algazarra de um bando de maritacas.

− É uma pena vender a Fonte pro corte – disse Zé Maria entristecido.

− Ela tá velha e tem só duas tetas, Zé Maria, mamite arruinou com as outras duas.

− É, sô Crispinzinho, mas com as duas ela dá vinte litros por dia; bem mais que muita vaca de primeira cria com as quatro tetas.

− Chegou o dia dela. Igual a gente: cada um tem seu dia marcado.

Zé Maria esperava que o seu dia estivesse muito distante. Sua vida nunca foi fácil, mas agora ele tinha um bom motivo para querer viver. Seus olhos se iluminaram quando pensou em Similhana. Seu rosto se abriu num sorriso.

 

 

− Que cara é essa, crioulo, viu passarinho verde?

Zé Maria se alarmou, com medo de que seus pensamentos aparecessem estampados no rosto.

− Vi um bando. Passarinho verde é que não falta por aqui, sô Turíbio.

Eles estavam entrando em Bandeirinha. Zé Mariaficou aliviado quando Turíbio esporeou o cavalo para cercar a Fonte e trazer o gadinho de volta para a estrada.

− Vai tocando o gado, Zé Maria, vamos passar na venda do Toin Ricardo e te alcançamos no Mário Campos.

Sozinho, a lembrança de Similhana dominou Zé Maria completamente: seu rosto moreno de maçãs salientes, as grossas sobrancelhas que quase se encontravam, seu largo sorriso, os dentes branquinhos e perfeitos, seus cabelos longos e lustrosos de tão negros formaram uma imagem tão nítida diante de seus olhos que ele estendeu as mãos tentando tocá-la. A lembrança do seu cheiro o transportou e ele já não via a estrada e o gadinho que caminhava à sua frente; junto com o cheiro veio o sabor de seus lábios...

Turíbio e Crispinzinho alcançaram Zé Maria na entrada de Mário Campos.  Ficaram a uns trinta metros, ouvindo-o cantar.

“Espera um pouco, rei Dom Jorge,
enquanto vou ao sobrado,
Buscar um cálice de vinho que pra ti tenho guardado.”

− Pensando na Similhana, crioulo?

Zé Maria emudeceu.

− Pensar nela já é uma ofensa, seu crioulo imundo.

− Calma, Turíbio, ele tava só cantando.

− Cantando a modinha dela.

− Calma, Turíbio, tudo tem seu tempo e sua hora.

Turíbio esporeou o cavalo e desviou o gado para a estrada de Brumadinho.

− Mas nós não vamos pro matadouro da Colônia?

− Resolvemos dar uma passadinha na casa da tia Maria – respondeu Crispinzinho.

− Mas tá ficando escuro.

− E daí? O Manoel Leproso espera.

Zé Maria gelou. Os irmãos de Similhana tinham descoberto. Iam matá-lo. Eles não trouxeram arma de fogo, só as facas. Ele também tinha a dele. Eles eram dois, mas ele era mais forte e mais acostumado com briga de faca.

Lembrou-se de Paracatu, da briga e da fuga inevitável. Tinha sido uma briga à toa. Sem motivo, cachaçada.  Se arrependimento matasse... Nunca mais pôs pinga na boca. Veio para as beiradas do Paraopeba para começar vida nova. No Engenho Seco encontrou trabalho. O velho Crispim era um tirano, mas sabia dar valor a quem trabalhasse.  Mas o que ele jamais imaginou encontrar na vida, ele encontrou no Engenho Seco: o amor de Similhana. Se ele matasse um de seus irmãos a perderia para sempre. Perderia sua razão de viver. Se fugisse ficaria sem ela do mesmo jeito.

Quando as últimas casas de Mario Campos ficaram para trás, estava quase escuro. Iam em silêncio, margeando a estrada de ferro e ouvindo o rumor das águas do Paraopeba que fica logo abaixo.Turíbio ia à frente das reses, de candeeiro, Crispinzinho fechava o cortejo.  Zé Maria viu Turíbio pegar uma acha de sucupira numa pilha de lenha à beira da estrada e vir em sua direção a galope. Conseguiu evitar a porretada se abaixando, mas Crispinzinho o derrubou do cavalo com um soco nas costelas. Os dois o cercaram, empunhando as facas.

− Só queremos saber se você pegou a Similhana à força ou se ela deixou.

− Que diferença faz, sô Turíbio?

− Muita. Ou morre um, ou morre dois.

− Conhece sua irmã, ela nunca faria isso.

− Prova, então.

Zé Maria tirou a camisa e mostrou as costas lanhadas.

− Isso tá parecendo arame farpado.

− É unha, Turíbio – disse Crispinzinho, puxando violentamente Zé Maria pelo ombro, fazendo-o girar e enterrando a faca na barriga do negro. Turíbio golpeou Zé Maria no vão do pescoço.

Zé Maria não esboçou um único gesto de defesa, sua faca continuava na bainha; caiu de joelhos e depois de um breve instante emborcou com o rosto na terra.

 

O fundo escuro do rio Paraopeba é cheio de sumidouros de onde nada retorna.

 

 

 




publicado por quemcontaumconto às 09:18
Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011

 

ILDEU GERALDO DE ARAÚJO

24/12/2010

− Alô.

− Amaral, que brincadeira é esta. Você enlouqueceu de vez?

Depois da separação, Mariana nunca mais chamou o marido de Nini, Nininho, Valdo ou Dico. Passou a chamá-lo pelo sobrenome, com faziam os colegas de trabalho.

− Que brincadeira, Nana, não estou entendendo.

− Ou será que você resolveu me enlouquecer? Olha aqui, Amaral, usar nosso filho para me atingir é uma sujeira que eu não esperava de você.

− Quer fazer o favor de me dizer o que está acontecendo?

− Se o Bruninho entrar em depressão outra vez, eu te mato.

− Nana...

− Que pai é você para fazer isso com seu filho no dia de natal...

− Nana, pode me explicar o que está acontecendo.

− O que o Bruninho te pediu de presente de natal?

− Um i-pod, que deixei na portaria ontem à noite.

− Deixe de ser cínico, Amaral, não entendo de eletrônica mas sei a diferença entre um i-pod, e uma meia velha, uma porção de trapos e uns gravetos. E você ainda teve a cachimônia de colocar numa linda caixa e embrulhar pra presente.

− Cachimônia. De onde você desenterrou essa palavra? 

− Não desvie o assunto, seu cínico. Como você pôde fazer isso...

− Nana, não chore. Posso ir aí?

− Entendi. Agora entendi o seu plano. Você é maquiavélico mesmo.

− Nana, não desligue, Nana...

***

− Alô.

− Venha rápido. O Bruninho está daquele jeito que ficou quando nos separamos.

− Estou indo.

Quando Nivaldo entrou no apartamento seu coração disparou. Era a primeira vez que entrava naquela sala deste janeiro daquele ano, quando Nana o pôs pra fora. Encontrou os olhos dela, vermelhos, cheios de ódio e ressentimento.

Bruninho estava sentado no chão com o olhar perdido. Ao lado, uma pequena arca de madeira ricamente entalhada e dentro dela uma meia, alguns trapos e seis gravetos, conforme Nana descrevera.

− Nana, chame o porteiro, eu juro que deixei um i-pod na portaria.

− Ele está de folga. É natal, esqueceu?

− Vou procurar na portaria. Deve estar em algum lugar.

Nivaldo procurou em todos os escaninhos da portaria e não encontrou nada. Voltou intrigado.

− Nana, quem trouxe esta caixa?

− Deve ter sido o Papai Noel. Você insiste em dizer que não foi você?

− Tenho meus defeitos, mas isso eu não faria. Você me conhece.

− Achei que conhecia...

 

Nivaldo se sentou no chão ao lado do filho. Bruninho tinha nove anos. Era um menino vivo e muito afetuoso. A separação dos pais foi arrasadora para ele. Entrou numa profunda depressão que demorou seis meses para ceder.

Nana ficou observando os dois sentados no canto da sala. O que mais a entristecera na separação foi privar Bruninho do pai, que ele adorava. Não podia negar: Valdo era um bom pai.

Viu Nivaldo remexer a caixa, tirar a meia, os trapos e os seis gravetos. Viu que seus olhos começaram a brilhar, e não pode evitar o sentimento de ternura: nos lábios de Nini surgiu um sorriso de criança. Os trapos foram cuidadosamente enrolados formando uma esfera e enfiados dentro da meia. Nini rodou a meia e a virou pelo avesso de modo que os trapos de pano ficaram contidos na ponta da meia.

Bruninho começou a olhar com interesse o que o pai estava fazendo. Nini rodava a meia e a virava pelo avesso sucessivamente até que surgiu uma bola de meia.

− Nana, você tem um pedaço de barbante?

− Pega na sua caixa de ferramentas. Ela está no mesmo lugar.

− Posso?

Nana fez um gesto com a mão permitindo que Nini entrasse na cozinha e chegasse mais perto de seu coração. Viu Nini dar acabamento na bola, armar duas casinhas em forma de pirâmide com os gravetos e ensinar o filho a jogar bente altas.

 

 

− Porque vocês não vão jogar lá em baixo?

Quando os dois saíram Nana abriu a geladeira, colocou uma garrafa de vinho, retirou o resto da ceia e foi preparar o almoço. 

 



publicado por quemcontaumconto às 21:05
Domingo, 23 de Outubro de 2011

 

Ildeu Geraldo de Araújo
15/05/2011

Este coroa me dá nos nervos.             

− Ô cara, dá pra ir mais rápido? Pega a pista da direita.

Se eu chegar depois das onze, ferra tudo e aí o Fininho me ferra.

− Tá amarelo, cara, acelera. Tô mandando, cara. Tá vendo este trabuco? Ele está na minha mão, não tá? Então eu estou no comando, sacou?

O Fininho falou que tinha que ser um Honda Civic, só coroa tem um carro desses. Cinco quilômetros depois do posto Chefão, foi o que o Fininho disse.

− Vai pela Contorno e pega a Nossa Senhora do Carmo.

Ele pensa em tudo, sabe das coisas. É como dizia minha vó: você vai com o milho e ele já tá com o fubá pronto. O último trabalho só deu errado porque o Caolho marcou bobeira. Primeiro ele passou três vezes seguidas em frente à loja de conveniências, depois entrou e ficou um tempão vendo as coelhinhas da Playboy, aí tirou o celular, ligou e falou: Limpo. É bobeira demais. Quando o Fininho e eu paramos em frente à bomba já tinha dançado tudo. O Fininho sacou logo. Saiu cantando pneu quando a rapa entrou no posto. O Caolho escapou dos home, mas o Fininho pegou ele de jeito. Sem perdão.

− Acelera, coroa, esta máquina faz mais que 150. Você está com sorte. Vai viver perigosamente uma vez na vida. Acelera.

Esse cara me dá nos nervos. Fica me olhando de meia jota, como dizia minha vó. Não gosto do jeito que ele me olha. Olha com raiva e desprezo. Olho ruim igual ao do Velho. Vó dizia que o Velho matou minha mãe de pancada. Eu nem me lembro da cara dela. Era muito pequeno. O Velho sumiu.

− Manera, manera, cara. Não está vendo a blitz ali na frente? Se bancar o esperto cê morre. Eu vou junto, mas não tô nem aí. Juízo, cara, e tudo termina bem. Só quero o carro. Vai passando. Só para se eles mandarem.

 

“Viu? Deu tudo certo. Ter olho verde me ajuda pra caramba. Tenho cara de anjo, né? Agora acelera de novo que estamos atrasados.

O Velho tinha olho verde. Olho verde é traição, Vó dizia e olhava pra mim com raiva. Depois me abraçava e chorava um tempão.

− Vai com calma, coroa. Estou com pressa, mas quero chegar vivo. Manera, cara. O que você tá querendo fazer? Quer matar a gente?

Ele me olha com raiva. Seus olhos também são verdes. Aperto o gatilho uma, duas, três, quatro vezes.

 



publicado por quemcontaumconto às 14:17
Sábado, 09 de Julho de 2011

− PAI!!!

Gritei sem querer; meu pai apareceu na hora, pegou minha mão e me tirou do meio da roda de meninos, que se abriu. Meu pai não disse nada e me levou para casa.

Minha mãe perguntou o que tinha acontecido.

− Nada – meu pai disse – Paulo levou um soco no peito.

− Deixe eu ver. Não tem marca nenhuma. Quem bateu nele?

− Um menino um pouco maior do que ele. Coisa de criança.

− Tá vendo, Paulo, é por isso que não gosto que você vá ao Cine Grátis, só tem moleque. Beba, é água com açúcar.

Custei a dormir. Quando fechava os olhos, via o  Carlitos fazendo palhaçada na tela do Cine Grátis, o Pedrão empurrando todo mundo, dando peitada e ombrada. Eu firmei nas pernas e escorei ele. Ele mandou um soco no meu peito, eu vi estrela e fiquei sem ar.

Por que eu fui gritar? Devia ter dado uma rasteira nele. Aí é que eu ia apanhar mesmo. Vou arrumar um soco inglês e arrebentar a cara dele. Se eu tivesse um cabo de aço ele ia ver. O Leão não para de latir.

Minha mãe me contou que quando eu era pequeno, era muito doente. Ela tinha medo que eu morresse, igual meu irmão mais velho, que morreu com três dias. A Vó me deu um gato e um cachorro, os dois eram pretos. Disse pra minha mãe: “O que tiver de acontecer com o Paulo, vai acontecer com o gato ou com o cachorro”.

Do gato eu nem me lembro; minha mãe disse que ele foi ficando pesteado e morreu quando eu era neném. Leão, o meu cachorro, foi atropelado e a mão direita, lá dele, foi esmigalhada e ficou presa por um pedaço de pele. Quando ele andava manquitolando em três patas, balançava o coto de mão.

No dia seguinte ao Cine Grátis, acordei normal, tomei meu café com leite e já estava na porta para sair quando minha mãe perguntou:

− Melhorou, Paulo?

− Melhorei de quê?

− Da dor no peito.

Aí voltou tudo. A dor no peito, a falta de ar, a vergonha de ter gritado, o ódio do Pedrão. Na escola eu tentei trocar a figurinha da Esfinge pelo soco inglês do Alfredo, mas ele pediu uma fortuna, queria a coleção completa das Balas Atlas, o saquinho de bolas de gude e o santinho de Santo Antônio que eu tinha ganhado na aula de religião. Acabei concordando. Quando estávamos fazendo a troca a D. Margarida viu a gente conversando, tomou o soco inglês, o álbum de figurinhas, o santinho e ainda pôs a gente de castigo.

Na matinê de domingo assisti “Tarzan e a Fonte Mágica” com o Alfredo. Eu gostava mais do Tarzan antigo, o John Weissmuller.

− O Lex Barker é muito melhor, é mais novo e mais forte.

− É, Alfredo, mas o John Weissmuller luta melhor, lembra da luta dele com o leão no “Tarzan e as Sereias”.

− Não tinha leão neste filme, você tá doido.

− Então foi no “Tarzan e a Mulher Leopardo”.

Voltei pra casa discutindo com o Alfredo. Quando passamos perto da igreja, vimos o Pedrão jogando bola com a turma dele. Eu chamei o Alfredo para o outro lado da rua. Acelerei o passo. Quando já estava para dobrar a esquina ouvi: “PAIÊÊÊ!”

 

− Que cara é essa, Paulo?

Não respondi nada pra minha mãe. Almocei calado e fui ler debaixo do pé de manga. Mas não conseguia me concentrar no Robinson Crusoé. Aquele “PAIÊÊÊ!” não saía da minha cabeça. Vou matar aquele desgraçado. Fiquei imaginando que eu era o Tarzan, pegava o Pedrão pela gola, suspendia ele bem alto e jogava no meio de um bando de tigres famintos. Quando eu fosse engenheiro e chefe da Fábrica de Tecido da Renascença, o Pedrão ia me pedir emprego. Contratava ele como meu engraxate. Ele ia viver ajoelhado aos meus pés, engraxando meus sapatos. Se tivesse outra guerra, eu ia ser general e mandava o Pedrão pra batalha mais violenta. Ele ia acabar num campo de concentração, morrendo numa câmara de gás.

Eu acabei indo ao Cine Grátis, na quarta-feira seguinte. Quando saí de casa, deixei o portão aberto e meu cachorro me acompanhou. Fiquei mais atrás, para evitar confusão, como havia prometido à minha mãe. Subi numa pilha de tijolos para ver melhor. No intervalo, enquanto o filme do Carlitos era rebobinado, o Pedrão me achou.

− Desce daí, medroso. Você não é homem não?

− Desci com toda calma e quando estava em frente ao Pedrão, gritei com toda força:

− Ôôô, ô-ô-ô-ôôô- ô-ô-ô-ôôô!

Um leão enorme saltou sobre o Pedrão e o derrubou, colocando a pata no seu peito.

Pedrão começou a chorar e a pedir perdão. Sua calça estava molhada e tinha uma poça enorme de xixi em volta dele. Eu ordenei ao leão:

− Basta. Vamos poupá-lo.

Saí de lá com passos firmes. O leão ia ao meu lado rosnando e mostrando os dentes para as pessoas, que nos olhavam morrendo de medo.

Quando virei a esquina, Leão estava manquitolando ao meu lado.



publicado por quemcontaumconto às 18:20
Quinta-feira, 09 de Junho de 2011

 (“Ainda bem que nestes cinemas de shopping ninguém sabe qual filme a gente assistiu. Já imaginou uma de minhas amigas me vendo sair de um filme chamado Uma Relação Pornográfica?”)

− Ficou constrangida com filme, Léa? – perguntou Frei Irineu, quase adivinhando os pensamentos de sua paroquiana.

− O título é mais constrangedor que o conteúdo do filme. A tradução para o português é apelativa. No cartaz estava “An Affair of Love”.

− O filme é francês, Lea, e o título original é “Une Liaison Pornographique” – disse Luiz, que caminhava um pouco à frente com Tatiana, sua jovem esposa.

A ida ao cinema tinha sido ideia do Frei Irineu, que estava organizando a Pastoral Familiar na paróquia de Santa Inês.

− Vamos comer uma pizza e comentar o filme?

− Com um chopinho, Frei?

− Uns, Luiz.

Procuraram uma mesa mais afastada da pizzaria onde pudessem conversar à vontade.

− Gostou do filme, Léa?

− Difícil dizer. Confesso que fiquei emocionada com a ternura dos dois. Queria que eles ficassem juntos. Francamente, não acredito que uma mulher aceitasse, pior, propusesse se encontrar com um homem desconhecido para “realizar uma fantasia”. Só mesmo num filme francês.

− Engano seu, Léa. Você não imagina o que ouvimos nos confessionários.

− Afinal, que fantasia era essa? O filme não mostra nada. Eles entram para o quarto e a gente fica do lado de fora.

− Ah! Você ficou curiosa, queria ver a cena.

− Deus me livre, Luiz – reagiu Léa enrubescida − homem é que gosta dessas coisas.

Léa estava viúva há cinco anos. Aos cinqüenta adquirira uma beleza madura que ainda atraia olhares apreciadores. Seu coração tinha um único dono, a netinha de três anos que morava em sua companhia, juntamente com sua filha desde a separação do marido. O cuidado da neta e a dedicação ao trabalho na Igreja davam sentido à sua vida. 

− Achei significativo o filme não mostrar a fantasia. O filme não é pornográfico. Pornográfica é a relação dos personagens.

− Em que sentido, frei Irineu?

− Ora Luiz, os dois se encontram num quarto de hotel, sem se conhecerem, sem qualquer laço e com a intenção explícita de não criarem nenhum envolvimento, cada um usando o outro como um objeto para realizar uma fantasia. Isso é pornografia.

− Frei Irineu, são duas pessoas livres. Ninguém foi obrigado. Os dois tiveram prazer. Onde está a pornografia?

 − Na falta de envolvimento, Luis, na falta de amor. Na carência de humanidade. Toda relação humana tem uma dose de compromisso.

(“Tive minhas relações pornográficas. Eram bem excitantes e no final batia um vazio.”) Luiz foi arrancado de seu rápido devaneio pelas palavras da esposa.  

− Pois eu achei a idéia atraente exatamente pela falta do peso do compromisso. Principalmente a mulher: me pareceu livre, corajosa e autêntica. Teve um desejo e tratou de realizá-lo. O homem foi mais passivo. Ficou um pouco incomodado com a atitude dela, mas não deixou de aproveitar a oportunidade.

Todos ficaram surpresos com a veemência de Tatiana.

(Idéia atraente? Será que a Tatiana tem desejo de transar com um homem desconhecido? Será que ela teria coragem?) Estes pensamento fizeram Luiz se calar e fechar a cara.

− Nós, mulheres, sempre fomos reprimidas. Você, Lea, foi casada por vinte anos. Você ousou alguma vez tomar a iniciativa, expressar seu desejo?

− Eu fui muito feliz com o Antônio. Ele foi muito bom para mim. Amoroso, carinhoso, amigo, companheiro.

− Sim, eu sei. Sempre admirei a relação de vocês. Mas estou falando de desejo, de prazer, de sonho, de fantasia.

− Voltemos ao filme, meus amigos – falou Frei Irineu para mudar o curso da conversa. No decorrer da história as coisas mudaram. A câmara e nós fomos admitidos no quarto do hotel e presenciamos um ato de amor.

− É, a relação deixou de ser pornográfica, mas por que eles não ficaram juntos. Estavam tão apaixonados. A declaração de amor dela foi tão comovente.

− Para não sofrer, Léa. Você acha que conhece uma pessoa, tem certeza do amor dela e de repente descobre que ela acha “atraente” a idéia de ficar com um desconhecido. Acha pesado o compromisso que ela assumiu com você.

Luiz estava com os olhos cheios d’água. Tatiana olhou pra ele, atônita.

− Môr, que isso? É só um filme. Nunca pensei em fazer isso com você. Eu te amo, você sabe.

Luis levantou-se, deixou uma nota de cem reais em cima da mesa e saiu apressado. Tatiana correu atrás dele.

− É, Frei, o caldo entornou.

− Amadurecer é um processo doloroso, Léa. Amar é uma coisa complicada, mistura o legítimo desejo de exclusividade com o intolerável sentimento de posse. Como conjugar o amor com a fidelidade, com a liberdade.

− Antônio dizia que para amar é preciso ter muita inteligência.

Ficaram alguns momentos em silêncio no meio do burburinho da pizzaria, bastante movimentada naquela noite de sexta-feira.

− Amanhã tem catecismo cedo. Vamos chegando.

− Vamos frei Irineu. Eles são jovens e se amam. No fim dá certo.

− É claro, Léa, te deixo em casa.



publicado por quemcontaumconto às 23:53
Sábado, 14 de Maio de 2011

(Junia Castro B. Rezende)

 

Bolonha choca, no início quase incomoda. Como prédios históricos podem ser tão descuidados? Tantas pixações, punks com cães enormes e sujos, pessoas bebendo nas praças a qualquer hora do dia. Uma cidade de vândalos, de desocupados?

Bolonha é tímida, se mostra aos poucos. Para conhecê-la é preciso de um pouco de tempo.

Bolonha é a cidade das torres, dos pórticos acolhentes, que protegem contra a chuva e contra o sol. A cidade dos ricos e dos pobres. A Igreja é sempre aberta aos  dois grupos, igreja feita metade em mármore e metade em tijolinhos, evidenciando a riqueza, a ostentação e a crise do catolicismo e de seu país-berço.

Bolonha é a cidade dos jovens de toda a itália, dos jovens de todo o mundo. Em Bolonha ninguém é de Bolonha. A cidade da diversidade e do respeito pela diversidade. Onde pode-se ser patricinha, descolado, tranquilo, hippye ou “punk a bestia” (a besta, no caso, é o cachorro) . A única regra é ser fiel ao seu próprio estilo.

Bolonha é a cidade que pertence à Universidade. Onde estão grandes nomes do grupo de notáveis da Itália e grandes nomes do futuro grupo de notáveis da Itália. Onde a filosofia é amiga da política e das artes e tenta se aproximar do direito, mas nem sempre daquilo que parece direito. É a cidade onde as aulas travam batalhas diárias com exibições de arte, manifestações, debates políticos e espetáculos. Onde a pixação não é só vandalismo, mas primordialmente, é forma de expressão.

Bolonha, "la rossa", a tradicional esquerda italiana. A cidade de vanguarda, do primeiro governo comunista eleito, do movimento anti-fascismo durante a guerra. Cidade onde todos odeiam o papi Silvio.

Bolonha, "la grassa", dos presuntos, queijos parmesões, tagliatelli al ragù e crostatas, dos cafés infindáveis. Cidade das vitrines que fazem dar água na boca. Cidade onde cozinhar é programa e comer é um evento, é um grande prazer.

Bolonha é a cidade que não dorme nunca, mas que não se esquece que está na Itália e não quer ser Nova Iorque. Não é frenética! Em Bolonha reina a calma e nada mais justificável que o atraso causado por um café. É a cidade da noite, da noite de todos. Da noite do jazz, do raggae, das boates, dos violões nas praças e dos bêbados (para os quais até o dia é noite). É a cidade dos dias de ócio no Giardinni Margherita, dos cães que correm desesperados, dos que lêem deitados na grama, dos que namoram nos bancos e dos que escrevem um texto estranho sobre a cidade que estão vivendo por um tempo.

Para conhecê-la é preciso de um pouco de tempo, para amá-la basta não sair dela. Bolonha é a moça bela conhecida em tempos de guerra. Ela sabe que será amada. Sabe que um dia será deixada, mas tem a certeza de que jamais será esquecida.



publicado por quemcontaumconto às 20:31
Quinta-feira, 31 de Março de 2011

 

Roberto Jr. herdou do pai uma bolada e, paradoxalmente, o horror de pegar em dinheiro. Sua vida era bem mais fácil que a de seu progenitor, pois agora havia a internet. Ele mantinha um controle rigorosíssimo de suas aplicações e conta bancária. No ano 1999, Roberto entrou em pânico com o bug do milênio. Desaplicou todo seu dinheiro e comprou ouro. Quando o cataclismo previsto não se concretizou, ele voltou às tradicionais aplicações em CDB, LTN, Fundos DI e outros. Só não aplicava na bolsa pelo medo de perder, se bem que ficasse agoniado com os lucros que poderia ter ganhado nos períodos de alta. Mantinha na conta corrente três mil reais para as despesas cotidianas.

No dia 2 de janeiro de 2001, ao conferir seu extrato bancário, Roberto achou um erro de dez centavos. Ligou para o gerente que prometeu verificar. Para ficar livre do cliente inoportuno mas importante, ele mandou creditar em sua conta os dez centavos. Uma semana depois novo erro de dez centavos. Nova reclamação, resolvida do mesmo jeito. Na décima ocorrência Roberto foi ao banco. O Gerente lhe explicou que devia ser arredondamento, pois, como ele pagava todas as contas e despesas pelo banco, fazia muitas operações de pequeno valor.

Roberto telefonou para seus amigos contando o ocorrido. Nenhum deles tinha notado nada em seus saldos. Aliás, o controle que faziam de suas contas bancárias era bastante precário. Roberto estava convicto de que havia um complô muito bem estruturado para roubar os clientes dos bancos em pequenas quantias. Raciocinava que se fossem surrupiados dez centavos por semana dos cem milhões de depositantes da rede bancária brasileira, daria o valor de quinhentos e vinte milhões de reais por ano.

Elaborou um relatório com todos os dados e enviou uma reclamação formal ao Banco Central. Seis meses depois recebeu um pedido de informação sobre os prejuízos que ele teria tido e como a importância fosse irrisória o assunto foi arquivado.

Roberto entrou no blog do Noblat e postou o seguinte comentário:

“Existe um complô para roubar os correntistas dos bancos. A cada semana são retirados dez centavos da conta de cada correntista, como as pessoas não fazem um controle rigoroso de seus saldos estes débitos passam despercebidos. Os bancos elegam que é problema de arredondamento. Em um ano o golpe rende quinhentos e vinte milhões de reais.”

Os seguidores do Blog caíram de pau, acusando-o de paranóico. Como ele insistiu na denúncia foi convidado deixar os blogueiros em paz.

Nas semanas seguintes Roberto recebeu vários e-mails descrevendo problemas semelhantes aos dele. Roberto criou seu próprio blog. Em pouco tempo tinha muitos seguidores. Um dia seu computador morreu de uma infecção virótica extremamente virulenta. Com a persistência de um fanático, Roberto comprou um computador novo e continuou sua luta contra aquilo que ele denominou “O Monstro”.

Foi intimado a comparecer à DERCIFE – Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Informático e Fraudes Eletrônicas. Acusação: Pedofilia pela internet. No interrogatório ele se disse vítima de um complô cibernético em represália à denúncia que fez contra “O Monstro”. Na Delegacia ficaram impressionados com sua criatividade. Ficou detido para averiguações. Seu advogado o aconselhou a não insistir na história de complô e alegar problemas psicológicos. Ele manteve sua argumentação, pois tinha, não só a convicção de que estava certo, como acreditava que tinha a missão de salvar o mundo de uma ameaça terrível. Concluiu que o golpe dos dez centavos destinava-se a financiar uma operação bem mais abrangente.

 Como era muito rico conseguiu um habeas corpus. Transformou sua casa num quartel general. Contratou um especialista em segurança de sistemas digitais, comprou um super computador com um potente firewall e lançou, pela internet, uma convocação a todos estivessem dispostos a lutar contra “O Monstro”

No dia três de setembro de 2008 o Globo publicou a seguinte notícia: “Apagão da internet começou em Sorocaba, e afeta a rede de acesso à internet pela Telefonica. Prejudica os serviços em unidades do Poupatempo, delegacias da polícia civil, o Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN), o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), agências bancárias, casas lotéricas e empresas privadas, além dos acessos residenciais.”

Roberto estava eufórico. “O Monstro” começara a mostrar suas garras. Tentou falar com o Governador, usando seus contatos com um deputado, amigo da família. Foi atendido pelo Subsecretário de Comunicação Social que, após ouvir com contida impaciência, lhe disse: “Esperamos que seja um problemas restrito a São Paulo. Esta Telefonica é uma empresa muito confusa e incompetente. Em Minas ainda temos reflexo do maravilhoso trabalho feito pela Telemig. Pode ficar tranqüilo que estamos atentos”

Roberto, sabia que nada seria feito. Manteve a luta por mais algum tempo. Seus seguidores foram desanimando. Ele ficou sozinho. Desligou seu computador da internet, contratou uma contadora para cuidar do seu dinheiro que era guardado num cofre em sua casa, contratou três seguranças e transferiu todas as suas aplicações para imóveis e ouro. Exigia que todas as transações fossem em dinheiro vivo.

No dia primeiro de janeiro de 2011, logo após a posse de Dilma Rousseff, uma guerrilheira que se tornou a primeira mulher a presidir o Brasil, a internet e todos os sistemas computadorizados entraram em colapso e o país parou.

 



publicado por quemcontaumconto às 23:49
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