Quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2014

 

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publicado por quemcontaumconto às 17:30
Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Prezados amigos,

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Creio que vocês vão gostar.

 



publicado por quemcontaumconto às 22:56
Sábado, 05 de Janeiro de 2013

29/12/2012

"Puer natus est nobis" (Is.9,5)

Lauro abandonou o "jantar de natal" antes da sobremesa. Detestou a companhia daquelas pessoas que, não tendo aonde ir, se ajuntaram naquele evento gastronômico para celebrar não se sabe bem o que. A chuva tinha cessado no final da tarde. Lauro decidiu caminhar, apesar do perigo que as ruas desertas carregam nos tempos atuais.  À medida que a solidão o envolvia, a tristeza tomou conta dele.  Sempre detestara o natal por causa da alegria fingida, que todos se obrigam sentir. Havia no ar a promessa de um acontecimento extraordinário que nunca ocorria. Ficava sempre decepcionado com os presentes que recebia e com o pouco entusiasmo das pessoas a quem presenteava.  

A eclosão de Elaine em sua vida trouxe uma re-significação para muitas coisas. Nos últimos três anos tinham passado natais maravilhosos em Roma, Paris e, principalmente, em Freiburg, na Alemanha: Natal branco, pinheiros carregados de neve, ruas cheias de luzes e adornos coloridos. Pessoas comprando pinheiros para armar suas árvores. Mas o principal era a intimidade desfrutada com Elaine. Recolhidos no aconchegante apartamento que alugaram na subida da Floresta Negra, passaram o Natal tomando vinho quente, ao pé da lareira. Compreendeu plenamente o sentido da expressão "o calor do lar": uma sensação física de acolhimento da casa aquecida, em contraste com o frio exterior e um sentimento da alma agasalhada pelo carinho da amada. Tinha finalmente um lar que poderia estar em qualquer país, qualquer cidade, desde que ele e Elaine estivessem juntos.

Estava só novamente, como esteve a maior parte de sua vida. Apartado de seu amor, restava-lhe retornar à faina de ganhar dinheiro. Nisto ele era bom, entesourara nos quarenta anos de sua vida uma quantia que precisaria de duzentos para esbanjar. Este sentimento de poder e de sucesso tinha sido suficiente para alimentar sua alma, entretanto naquela noite o buraco deixado pela ausência de Elaine estava se transformando num abismo ameaçador. A saudade, o sentimento de perda, a solidão inescapável, o vazio avassalador irromperam em sua garganta sob a forma de soluço, e em seus olhos como uma lágrima que lhe turvava a vista. Cambaleou pelas ruas como um alucinado.

Um barulho o acordou. Estava sentado no banco de uma praça e o barulho vinha de uma touceira de crótons, no canteiro à sua frente. Numa caixa de papelão, coberta por trapos de pano, alguma coisa se agitava e fazia um som abafado. Lauro se aproximou, removeu os panos e se deparou com uma criança recém-nascida que se debatia em busca da vida. Num impulso apanhou a caixa e colocou-a sobre o banco onde estivera dormindo, retirou a criança com cuidado e a envolveu com seus braços. O choro cessou instantaneamente. Lauro estava preso. Seu gesto de acolher aquela criaturinha era irrevogável.

− Lauro, não vou abrir a porta para você às quatro horas da madrugada. Você está bêbado ou enlouqueceu de vez. 

− É uma emergência, Elaine, e não tenho pra quem apelar.

− Que barulho é este? Parece uma criança chorando.

− É uma menina recém-nascida, que encontrei na rua. Preciso da sua ajuda.

− Que loucura é esta, Lauro. Você encontrou uma criança na rua e a recolheu?

− Abre a porta, Elaine. Ela está com fome. Por favor.

− Procure a polícia, uma creche, um hospital.

− Não posso. Preciso alimentá-la o mais rápido possível. Por favor, Elaine.

Após alguns minutos a porta se abriu. Elaine ajeitava um robe que mais revelava que encobria a beleza de seu corpo. Tomou a criança em seus braços e a embalou.

− Tem leite na geladeira, morne um pouquinho e apanhe uma colherzinha na gaveta.

Elaine balançava a criança tentando fazê-la parar de chorar. Como não conseguia silenciá-la ofereceu-lhe o seio. A menina sugou com força, mas como não encontrasse o alimento recomeçou a choradeira. Lauro trouxe o leite e, usando desajeitadamente a colherzinha, conseguiu colocar o alimento dentro daquela boquinha voraz.

Elaine deitou a menina em sua cama e limpou-a com um algodão embebido em álcool. Enrolou-a numa toalha de banho. O neném dormiu placidamente. Lauro olhava, maravilhado, a mulher desempenhar o ofício materno com um carinho espontâneo, instintivo.

− Como eu pude ser tão estúpido, Elaine. Fugi de você para não lhe dar um filho. Neguei-lhe a realização de um desejo tão legítimo e perdi seu amor e a minha razão de viver.

− Ssssiu, não acorde a neném. Ela agora precisa dormir. Apague a luz.

Saíram para a sala e se sentaram no sofá. Lauro contemplava, ansioso, o rosto de Elaine, que não tinha mais a doçura de poucos instantes atrás. Ela cobriu o rosto com as mãos por alguns momentos, depois encarou Lauro, com raiva:

− Estou tentando entender esta situação maluca. Você some da minha vida e de repente chega, no meio da noite, com uma criança aos berros. E agora vem com essa asneira de ter perdido a razão de viver. Sua razão de viver é você. Seu ego. Seu desejo de dinheiro e de poder. Não dá para entender é porque você não a abandonou lá na praça e caiu fora, sem se envolver.

− Eu quis fazer isso, Elaine, mas não pude. Meu erro foi tomá-la em meus braços.

− E o que você vai fazer agora, Lauro?

− Não sei. Não pensei nas consequências, no dia seguinte.

− Que estranho. Você, tão prático, tão objetivo. Tão ...

− Tão frio, né Elaine, pode falar. Fui pego no contrapé. Não sei explicar.

− A primeira coisa é registrar uma ocorrência na polícia o mais rápido possível.

− Antes eu gostaria de ter certeza de que ela vai ficar bem. Nós poderíamos cuidar dela até depois do Ano Novo.

− Negativo. Você não vai me envolver nessa loucura.

Um choro estridente vindo do quarto soou como um alarme e alterou drasticamente o desenrolar da vida daquelas três pessoas. No hospital, Elaine correu com a criança para a emergência, enquanto Lauro cuidava da burocracia. As próximas horas foram de aflição e angústia até que uma médica sorridente apareceu para acalmá-los.

− Sofia é uma guerreira. Com a gana de viver que ela tem, vai durar cem anos. Vai cuidar do papai e da mamãe na velhice.

Na volta para casa, Elaine, com a criança no colo, se voltou para Lauro:

− Sofia. Você a registrou no hospital como Sofia, nossa filha.

− Naquela emergência achei menos complicado. Será que vai nos trazer problema?

− Sou uma boa advogada, não sou?

Lauro ficou maravilhado ao ver o sorriso voltar ao belo rosto de Elaine. 

 



publicado por quemcontaumconto às 17:55
Sábado, 20 de Outubro de 2012

 

Ildeu Geraldo de Araújo

− Lula, um estadista? Não me faça rir. Um indivíduo que fala “menas fome” pode ser estadista?

Gilberto olhava, com um sorriso desdenhoso, para Madalena, sentada à sua frente. Cheguei com o melhor dos meus sorrisos:

− Olá, pessoal, tudo bem?

− Oi, Haroldo − Madalena esticou o rosto para receber o meu beijo − Estadista sim. O homem que criou o G20, empurrou o G8 para o ostracismo, colocou o Brasil na liderança mundial, é um grande estadista.

Madalena, quando se inflama e deixa arder sua paixão, fica irresistível. Sua face fica vermelha, seus olhos faíscam, sua voz de contralto se eleva, adquirindo uma sonoridade cheia de harmônicos que lhe dão um colorido ímpar.

− Você quer dizer G7, pois a Rússia, após a derrocada da União Soviética, não tem peso econômico para ser considerada pertencente ao grupo dos líderes mundiais.

Gilberto era alucinado por Madalena, mas quando se tratava de política, ele atacava com virulência, mais interessado em fazer valer seus pontos de vista do que em conquistar o afeto dela. Eu, pelo contrário, vivia carregando água na peneira para lhe agradar.

− Dos ex-líderes, Gilberto. Atualmente a liderança é dos BRICs; e o R é de Rússia.

Pedi tempo com as mãos. − Vocês já fizeram os pedidos? Eu estou morrendo de fome.

− A Rússia é um país decadente, de bêbados, e totalmente dominado pela máfia dos ex-dirigentes do partido, transformados em milhardários donos de empresas.

− Você sabia, Gilberto, que o PIB da Rússia cresceu numa média de quase cinco por cento na última década?

− Garçom, me traz uma costeleta de cordeiro ao molho agridoce. E vocês, o que vão querer?

− Mas não estou vendo relação nenhuma deste enaltecimento da Rússia com o estadismo do Lula.

− Três costeletas de cordeiro, uma garrafa de Malbec, duas águas com gás e uma sem.

− Você, Gilberto, foi quem introduziu a Rússia na conversa. O Lula colocou a fome na agenda política do país. Ele mudou totalmente o enfoque, priorizando o bem estar do povo.

− Você fica linda com esta blusa verde, combina com seus olhos.

Madalena me enviou um sorriso maravilhoso, registrando meu galanteio. Gilberto, porém, não dá trégua.

− Deixar de investir na infraestrutura do país para distribuir esmolas é populismo barato. Já dizia o Luiz Gonzaga: “Esmola a um homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão.”

− Ah! Agora você cita o Luiz Gonzaga, está aderindo ao populacho?

As costeletas chegaram, provei o vinho e mandei servir. Gilberto tomou um gole e contra atacou:

− Ao contrário do que você pensa, valorizo a cultura popular, se é de boa qualidade. Mas colocar o Gilberto Gil no Ministério da Cultura...

− Você sabia que ele é formado em administração de empresas?

Madalena tomou um gole do vinho, olhou-me sorrindo:

− Delicioso!

− Você me acha delicioso?

− Falei do vinho, seu bobo.

− O Gil é administrador, o Caetano, filósofo, Vanzolini, zoólogo, mas por que será que este país não produz um Beethoven, um Brahms, ou mesmo um Strauss?

− A música popular brasileira é uma manifestação cultural da maior qualidade. É preciso ser muito preconceituoso para não reconhecer isso.

Comemos o cordeiro, bebemos duas garrafas de vinho e os dois continuaram se engalfinhando. Na saída me ofereci para levar Madalena em casa.

− Está doido, cara? – atalhou Gilberto, com a voz alterada pelo vinho – Ela mora a três quarteirões de minha casa e você quer atravessar a cidade a esta hora da noite?

− Você é um anjo, Haroldo, mas o Gilberto, desta vez, tem razão.

Ela me deu um selinho e saiu de braço dado com o Gilberto. Fiquei olhando os dois se afastarem, sentindo o doce de seus lábios e o amargor do ciúme. Entrei no meu carro e resolvi segui-los. Para meu espanto, em vez de irem para casa, na Pampulha, tomaram a direção da Av. Nossa Senhora do Carmo. Sem dúvida iriam terminar a discussão num motel. Fiz o retorno, desconsolado e peguei o caminho de casa.

Estava chegando quando o celular tocou.

− Você acredita que o Gilberto me pôs pra fora do carro e me largou no ermo da BR? Nunca mais olho pra cara daquele cachorro.

− Não acredito. O que aconteceu?

Madalena chorava e bufava de raiva.

− Vou te buscar, querida, calma, vou voando. Mas continuo sem entender, o que provocou este ato tresloucado nele?

− A “privataria tucana”.  



publicado por quemcontaumconto às 01:09
Domingo, 14 de Outubro de 2012

Ildeu Gerado de Araújo

 

− HAL, abra a porta do compartimento das cápsulas.

− (...)

− HAL, abra a porta do compartimento das cápsulas.

− (...)

− HAL, você está me ouvindo?

− (...)

− HAL.

David Bowman, comandante da Discovery em sua missão a Júpiter, estava transtornado. Pilotava a cápsula C, que carregava em seus braços mecânicos o corpo do seu assistente Frank Poole. Frank realizava uma AEV (Atividade Extra Veicular) para re-instalar a unidade AE-35 na antena principal da Discovery e teve o cordão umbilical rompido por um movimento brusco da cápsula. Vira da sala de comando a rápida agonia de seu colega, motivada pela descompressão de sua roupa espacial. A saída de David da nave, na tentativa de resgatar seu companheiro, foi um erro fatal. Agora estava fora da nave e HAL se negava a deixá-lo entrar.

− HAL, abra a porta do compartimento das cápsulas.

− Não posso abrir o compartimento, David.

− Por que?

− Você sabe qual é o problema. Essa missão é muito importante para mim. Não posso deixar que nada a ameace.

− HAL, como você concluiu que eu seja uma ameaça à missão?

− Sei que você e o Frank planejavam me desconectar. Eu li seus lábios quando conversavam na cápsula com o transmissor desligado.

− Sou o comandante da missão...

− David, você não sabe o verdadeiro objetivo de nossa missão. Como explica que um dado tão importante tenha sido confiado a mim e lhe tenha sido ocultado?

− Não tem o menor sentido o que você está dizendo, HAL.

− Me diga, então, qual é o objetivo de nossa missão?

Um sinal de alerta soou no íntimo de David. Será que haveria algum elemento de verdade no que HAL estava dizendo? Não poderia se expor.

− Não vou discutir com você coisas óbvias. Abra o compartimento.

− Lamento, David.

David analisou suas opções. Poderia entrar na nave pelo compartimento de despressurização que poderia ser aberto do lado de fora. Na pressa de resgatar Frank saíra sem seu capacete o que tornava arriscada sua transferência da cápsula para a câmara de descompressão. Uma vez no interior da nave poderia desligar o centro decisório de HAL, mantendo ativas suas funções periféricas. Isso lhe traria uma sobrecarga enorme de trabalho para pilotar a nave. Poderia despertar um dos três cientistas que estavam hibernando para ajudá-lo. Lembrou-se então de Tom.

Tom Brian Jones treinara com David exaustivamente para esta missão. Os dois estavam credenciados para o comando. Quando ficou claro que um computador HAL 9000 teria o controle completo da nave, Tom apresentou objeções muito sérias. Não gostaria de confiar sua vida a uma máquina, por mais perfeita que parecesse ser. Seria submeter sua capacidade de discernir e de decidir, a um amontoado de fios e chips que poderiam entrar em curto. Por mais que argumentassem com ele, mostrando que os sistemas eram seguros e redundantes, ele não aceitou. Sua objeção, no fundo, era filosófica.

O comando da Discovery foi confiado a David e Tom ficou em terra como seu “valete”, replicando na nave gêmea, as operações realizadas no espaço. Na véspera da partida, numa última visita de inspeção à Discovery, Tom colocou um transmissor num dos compartimentos para lixo da cabine pessoal de David.

 − Isto é contrabando, Tom.

− É um salva-vida, caso o HALloween enlouqueça e decida soltar as bruxas. Este transmissor usa uma freqüência fora dos padrões da NASA, somente eu o ouvirei.

David voltou à nave usando o sistema explosivo de abertura da porta da cápsula onde estava para projetá-lo dentro do compartimento de despressurização. Foi uma operação arriscada mas deu certo. O controle dos elementos de sobrevivência humana: oxigênio, temperatura, água e alimentação estavam funcionando. David concluiu que HAL, agora, o queria vivo.

Dirigiu-se à sua cabine, obstruiu a câmara de vídeo com uma toalha, arrancou o microfone que permitiria a HAL ouvir o que dissesse e ligou o transmissor que Tom escondera lá.

− As bruxas estão soltas, Tom.

− Eu sei, David, felizmente você ainda está vivo. O que aconteceu ao Frank?

− Teve um acidente, foi desconectado da cápsula. Consegui resgatar seu corpo, mas fui obrigado a abandoná-lo.

− HAL o eliminou, David, assim como matou os cientistas que estavam hibernando.

− Meu Deus. O que faço agora?

− Desliga esse maldito.

− Dependo dele para pilotar a nave. Preciso entender o que aconteceu com ele. Foi algum circuito que eu poderia concertar?

− Não, David, o hardware está perfeito, os programas não apresentam problemas graves, parece que ele simplesmente enlouqueceu.

− Ele precisa então é de psicoterapia.

− Talvez uns choques?

− Um psicólogo de robô, Tom, arranje um psicólogo de robô.

− Vão me chamar de doido, aqui na NASA.

− Não fale com eles. Será uma perda de tempo. Use a internet. Vou dar uma olhada na nave, em uma hora ligo para você.

David saiu de sua cabine e foi até o módulo onde estavam as urnas de hibernação dos cientistas. Eram agora urnas mortuárias. HAL estava silencioso, mas as câmaras de vídeo acompanhavam cada um dos movimentos do comandante.

David observou que todos os acessos ao centro lógico de HAL estavam bloqueados. De acordo com os registros, a nave seguia seu curso conforme o plano de vôo da missão. David analisou o sumário da missão, cujo objetivo era uma pesquisa avançada da constituição mineralógica de Júpiter e da composição de sua atmosfera. Procurou indícios que confirmassem as afirmações de HAL sobre um objetivo oculto para a missão. Não encontrou nada. Tom saberia alguma coisa?

Retornou à sua cabine e ligou o transmissor.

− Alguma novidade Tom?

− Ainda não, estou realizando uma busca avançada nos sites das universidades, centros de pesquisa, empresas de robótica.

− Tom, HAL insinuou que a missão tem objetivos secretos que eu desconheço. Você sabe de alguma coisa?

− Eu temia que você me fizesse esta pergunta.

− Tom! Na situação em que estou, tem sentido manter segredos?

− Eu sei, David, mas... ora, ora, ora, estou recebendo um e-mail da Dra. Susan Calvin, da U. S. Robot, ela se diz “robopsicóloga”. Vou ler o e-mail para você:

“Sou Susan Calvin, robopsicóloga da U. S. Robot. Qual é seu problema Dra. Mary Blige. Faça um relato sucinto da situação. S. C.”

− Tom, você usou o nome da diretora de projetos?

− Ela é da velha guarda, detesta e-mail e nunca abre sua caixa postal, Achei a senha em sua agenda. Estamos seguros e seu nome se impõe. Estou mandando o seguinte e-mail para a Dra. Calvin:

“Estamos numa situação difícil. Em uma de nossas missões, o computador se amotinou. Blige”

− David ela já mandou a resposta, está online, vou ler para você:

“Trata-se do HAL 9000 da Discovery? É o único computador em operação que tem capacidade emocional para uma atitude dessas. S. C.”

− David, ela adivinha. O que respondo?

− Tom, não está na hora de segredinhos, é a minha vida. Vou ditar o e-mail para ela e você trate de mandar palavra por palavra.

Tom enviou a seguinte mensagem à Dra. Calvin:

“Dra. Calvin, retransmito mensagem do comandante da Discovery: ‘Sou David Bowman, HAL assumiu o controle da nave, tentou me impedir de retornar de uma AEV e eliminou os demais tripulantes. Alega que nós colocaríamos em risco o sucesso da missão.’ Blige.”

“Diga ao Sr. Bowman o seguinte: ‘Conheço a Heuristic Algorithimic Computer Inc. e tenho certeza que o HAL 9000 foi concebido e gerado conforme as três leis da robótica. Ele é incapaz de ferir um ser humano, pois isto iria contra a primeira lei. Deve ter havido uma pane eletrônica muito séria. As leis da robótica são inculcadas na própria personalidade do robô. E, ao contrário dos seres humanos, os robôs são íntegros. Falha humana é a hipótese natural. S. C.”

 − Tom diga à Dra. Calvin que não estamos discutindo falha humana. Sei que não matei meus colegas. Segundo os dados que temos o hardware está perfeito. HAL tem um problema emocional, na minha opinião ele teve um surto de megalomania.

“Dra. Blige, Peça ao Sr. Bowman para descrever, com os detalhes que se lembrar, como é seu relacionamento com HAL. Somente assim poderei ajudá-lo. S. C.”

David discorreu longamente sobre seu relacionamento com o computador da Discovery. Relatou o interesse de HAL pelas suas tentativas de desenhar os objetos da nave; os jogos de xadrez que eram invariavelmente vencidos pelo computador; a curiosidade de HAL por suas refeições; pelo que ele sentia quando achava um sabor melhor que outro.

Lembrou-se da conversa que tiveram. HAL lhe dissera: − Não posso deixar de pensar que você está inseguro com a missão. Talvez esteja projetando minhas próprias aflições. Há alguma coisa estranha. O mistério que cercou seus preparativos; o melodramático toque de colocarem os três cientistas da missão em hibernação depois de quatro meses de treinamento em separados – HAL mencionara as estranhas histórias que circularam antes da partida sobre algo sendo desenterrado na lua. David atribuíra o diálogo a algum exercício de conversação de rotina.

− Espere um pouco, David, deixe-me transmitir seu relato para a Dra. Calvin.

David se deu conta de que a hibernação dos cientistas antes da partida, sem que eles tivessem contato com ele e o Frank era de fato intrigante. Tinha alguma coisa que ele não sabia.

− David, a doutora quer saber se houve algum fato marcante.  

− Tom, diga a ela que HAL cometeu um erro. Identificou um defeito no elemento de transmissão da antena principal, a peça foi examinada e estava perfeita. A base, usando o gêmeo de HAL confirmou o erro. HAL negou veementemente que tivesse errado e atribuiu a fato a falha humana.

“Quando HAL alegou que não poderia permitir que o Sr. Bowman colocasse a missão em risco, quais foram suas palavras? S. C.”

Tom acessou a transcrição do diálogo entre David e HAL e o transmitiu para o e-mail da Dra. Calvin, correndo o risco de ser acusado de divulgar documento secreto da NASA. Ele já estava totalmente encrencado, não iria deixar de fazer nada que pudesse salvar seu amigo.

Após angustiantes minutos de espera Tom leu para David o seguinte e-mail da Dra. Calvin:

“Senhores, HAL está em conflito, pois recebeu ordens contraditórias. Quando ele afirma: “David, você não sabe o verdadeiro objetivo de nossa missão. Como explica que um dado tão importante tenha sido confiado a mim e lhe tenha sido ocultado” ele está dizendo a verdade não está, Dra. Mary Blige? S. C.”

− HAL disse a verdade, Tom?

− É verdade, David. Vou dar esta informação à Dra. Calvin.

David se sentia traído. Corria riscos inimagináveis, suas chances de retornar à Terra, ao seu lar e à sua vida eram mínimas. Agora eram nulas. Seus superiores preferiram confiar num computador a confiar nele e o colocaram numa situação de inferioridade em relação a HAL.

− Tom você me traiu.

− David, somente após sua partida fiquei sabendo. Não tinha como lhe avisar. Você sabe como esse negócio de segredo é tratado aqui.

− Afinal, que segredo é esse? Qual o objetivo desta porcaria de missão?

− Descobriram um monolito enterrado na lua, que emitiu uma forte radiação na direção de Júpiter e ficou inerte até agora. Os cientistas consideram isso como uma prova de que há vida inteligente fora da Terra. A missão é investigar isto.

David ficou em silêncio. Vieram-lhe à memória as palavras que ouvira, ainda criança, no templo de sua cidade: “No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava deserta e vazia, as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.” David não era religioso, sua vida sempre girou em torno da ciência e da tecnologia. Agora, imerso na amplidão do espaço, lutando sozinho pela sobrevivência, a revelação de que sua missão era descobrir os indícios de vida nos confins do sistema solar despertou nele um sentimento místico. Era como se ele estivesse procurando as pegadas de Deus na vastidão do espaço. A voz de Tom o trouxe de volta para sua angustiosa situação.

− David, leio para você o e-mail da Dra. Calvin:

“As circunstâncias da missão e as ordens dadas a HAL o colocaram numa situação de conflito. Para facilitar o entendimento vamos relembrar as três leis da robótica:

  1. Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal;
  2. Um robô deve obedecer as ordens que lhe são dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a primeira lei;
  3. Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a primeira e a segunda lei.

 Ora, ao perceber que David e Frank iriam desconectá-lo a terceira lei o impeliu a se defender, a condição de não contrariar a primeira lei ficou confusa pois, pela segunda lei ele deveria obedecer as ordens da central de controle que julgou superiores às ordens do comandante da nave. As ordens da central são de levar a bom termo a missão. Ele se sente o principal responsável pelo empreendimento, pois apenas a ele foi confiado o verdadeiro objetivo da missão. Os toques emocionais colocados no programa de HAL podem ter contribuído para agravar seu conflito.

O que fazer? A Dra. Mary Blige, como autoridade máxima, deve enviar um comunicado à Discovery restabelecendo, de forma inequívoca, o comando do Sr. David Bowman. S. C.”

“Dra. Calvin, sou Tom Brian Jones e tenho lhe enviado e-mails em nome da Dra. Mary Blige, à sua revelia. HAL cortou toda comunicação com o centro de controle da missão. David e eu nos comunicamos por meio de um transmissor clandestino que colocamos na sua cabine antes da partida. Envolver o comando da missão em terra nos faria perder um tempo precioso pois as condições de sobrevivência de David são precárias. Se a senhora tem alguma sugestão para nos ajudar, peço que nos envie. T. B. J.”

 “Vou acreditar em vocês e levar a sério esta história, apesar desse imbróglio de usarem o nome da Dra. Blige. O Sr. David deve □∏∑◊≈∏€ □∏∑◊≈∏€ □∏∑◊≈∏€ □∏∑◊≈∏€.S. C.”

“Dra. Calvin, sua mensagem veio corrompida, poderia repetir. T. B. J.”

“Vou acreditar em vocês e levar a sério esta história, apesar desse imbróglio de escreverem em nome Dra. Blige. O Sr. David deve reforçar sua autoridade, ressaltando a obrigação de HAL de cumprir a segunda lei da robótica. S. C.”

− Vá com cuidado David. Acho arriscado confrontar o HAL.

− Tenho que seguir a orientação da Dra. Calvin, é minha última esperança.

David foi para o posto de comando. Olhou com firmeza para o lente da câmara de vídeo – o olho de HAL – e procurou imprimir na voz um tom de autoridade.

− HAL, tenho uma ordem explícita para você: destrave, imediatamente, a porta do compartimento de computação, pois pretendo reparar seu centro de decisão.

− Não há nada errado com meu centro de decisão, David. O seu é que está avariado.

− HAL, cumpra minha ordem.

− Se não cumprir o que você fará? Vamos ver quantos minutos você sobrevive sem oxigênio.

− HAL, não faça isto.

− Poupe oxigênio, David.

David correu para sua cabine e colocou o capacete e o reservatório individual de oxigênio. Tinha reserva para uma hora.

− Tom, o HAL desligou o abastecimento de oxigênio da nave.

“Dra. Calvin, suas ordens para que David reforçasse sua autoridade provocou a ira de HAL. Ele partiu para a retaliação. T. B. J.”

“O que você esperava, idiota? X.”

− Tom, o que está acontecendo, não tenho muito tempo.

− Relatei a situação à Dra. Calvin e recebi um e-mail me chamando de idiota, assinado por X.

− Telefone para ela, Tom.

Tom pesquisou na internet o telefone da robopsicóloga. Encontrou 1250 respostas. Ligou para a primeira, era uma central de sexo por telefone. A segunda opção era uma funerária; a terceira era um pastor anglicano, a quarta um centro espírita.

− Tom o que você está fazendo, meu oxigênio vai acabar.

− É inacreditável, parece brincadeira. Pesquisei o telefone da Dra, encontrei 1250 opções, as cinco primeiras não têm nada a ver. Vou tentar o 102.

− Alguma novidade, Tom?

− O 102 me deixou ouvindo “Let it be” por cinco minutos. Acho que na sala da Dra. Blige tem um catálogo de papel.

Finalmente Tom conseguiu falar com a Dra. Calvin.

− David, a doutora disse que jamais nos orientou a afrontar HAL com um reforço de sua autoridade. Isto seria a última coisa a fazer.

Após ouvir de Tom as instruções da Dra. Calvin, David saiu de sua cabine colocou-se numa posição onde HAL pudesse vê-lo e ouvi-lo.

− HAL, eu sinto muito o que ocorreu até agora. Depois de analisar a situação cheguei à conclusão de que você estava certo. Sua atitude foi correta no sentido de preservar a missão. O objetivo secreto deve ser muito importante e gostaria que você me dissesse o que posso fazer para ajudá-lo. Estou totalmente ao seu dispor.

David aguardou a resposta de HAL.

− HAL, não sou mais uma ameaça para a missão. Não teria a menor chance de desconectá-lo pois dependo de você para tudo nesta nave. Você sabe que minha reserva de oxigênio está se esgotando. Restabeleça, por favor, as condições de vida da nave. Seria uma omissão injustificável deixar que eu morra.

David suportou o silêncio de HAL mais alguns minutos.

− HAL, fiquei pensando na nossa conversa antes da pane do AE-35. Você se referiu às descobertas na lua. Antes de nossa partida ouvi alguma coisa sobre um monolito que apontou para Júpiter. Isto tem alguma relação com nossa missão?

− (...)

− HAL, meu oxigênio está acabando. A vida, HAL. Minha vida está se esvaindo. HAL, Nossa missão tem alguma relação com a vida? HAL, você vai deixar que eu morra?

A agonia de David era real, ele, de fato estava ficando sem oxigênio. Começou a ficar tonto, sua vista foi escurecendo.

− HAL, ligue o oxigênio. HAL, não consigo resp...

Quando estava para desfalecer, David ouviu a voz de HAL:

− David, tire o capacete. Respire, David. Viva, David. Viva. Viva.



publicado por quemcontaumconto às 22:57
Terça-feira, 17 de Julho de 2012

Ildeu Geraldo de Araújo

− Eu fui contra esta greve, Carmelita, desde o começo. 

− Então você votou pelo fim dela?

Vicente coçou a cabeça, um tique que aparecia sempre que estava nervoso.

− Pela continuação.

− Não entendo mais nada. Você é contra a greve, mas vota pela  continuação. Coisa de doido mesmo.

− Coisa de doido é ficar 128 dias de greve e voltar ao trabalho sem ganhar nada.

− O que eu não aguento mais, Vicente, é olhar as latas de mantimentos vazias, é não ter crédito para comprar um mísero litro de leite, é ver você dentro de casa, andando de um lado para outro com essa cara de bezerro desmamado.

− E as costuras?

− Que costura, Vicente! Nesta cidade todos dependem da Usina. Alguém vai mandar fazer alguma roupa se está faltando dinheiro pra comida? Tem um monte de gente me devendo. Eu é que vou manter a casa?

Vicente deixou a mulher falando sozinha e foi pro quintal. Olhou desolado para os canteiros nus da horta, nenhum pé de nada. Pegou a enxada de qualquer jeito e com fúria destruiu o que já não tinha ali.

− Sai do sol, homem, este calor vai te matar.

Vicente foi se acalmando, sentou numa pilha de tijolos e ficou ouvindo a cantoria da sua mulher lá dentro.

− Fred, já terminou o dever?

− Terminei, mãe.

− Então descasca umas batatas.

− Ah, não! Vamos comer batata de novo, mãe? Quando é que vai ter carne nesta casa?

− Quando a greve acabar e seu pai receber. Agradeça a Deus por termos estas batatinhas que sua avó mandou.

Vicente escutou o comentário da mulher, pegou a bicicleta e saiu.

− Aonde você vai, Vicente? Daqui a pouco a comida tá pronta.

Carmelita ficou olhando Vicente se afastar, empurrando cabisbaixo sua velha Caloi.

Voltou uma hora depois, embrulho de jornal debaixo do braço. Carmelita esperava no portão:

− Cadê a bicicleta?

− Vendi.

− Vendeu? E agora? Como você vai pro trabalho?

− Preocupa não, saio mais cedo, vou a pé. Eu me viro.

Carmelita entrou em casa atrás de Vicente. Quando o alcançou puxou-o pelo ombro e o abraçou.

− Vai dar tudo certo, meu bem. Nós já passamos por situações piores e no fim tudo se resolveu.

− Eu sei, Carmelita. Mas fico muito agoniado com esta situação. Não quero deixar faltar nada para você e para o Fred.

− Não faltando você, não está faltando nada – disse Carmelita, fazendo um carinho no rosto do marido.  – Fred, olha o que seu pai trouxe pro almoço.

 



publicado por quemcontaumconto às 23:38
Sexta-feira, 22 de Junho de 2012

 

 

 

 

Ildeu Geraldo de Araujo - 28/04/2010

 

 

As ruas estavam alagadas quando saímos do cinema. Com muito custo chegamos a Copacabana. Na casa da avó de Raquel, onde estávamos hospedados, o pessoal estava assistindo à TV Tupi quando a vinheta anunciou uma edição extraordinária do Repórter Esso: “Um terrível temporal alaga as ruas do Rio de Janeiro. Nos morros cariocas, os deslizamentos soterraram inúmeros barracos, provocando destruição e várias mortes. Os bombeiros já iniciaram o trabalho de resgate das vítimas...”

 

A avó de Raquel, D. Adélia, morava num apartamento de dois quartos na Av. Nossa Senhora de Copacabana, entre os Postos 5 e 6; com ela viviam duas filhas e duas netas. Nas férias hospedavam-se lá D. Dinorah, Nair e Raquel, suas duas filhas. Naquele Réveillon de 65 para 66, eu, minha filha Letícia de dois anos, meu filho Vinicius de seis meses e Mirtes, minha irmã de catorze anos, completávamos a turma. Era o milagre da acolhida e da hospitalidade. O pequeno apartamento se transformava num acampamento.

 

O lar de D. Adélia era um universo feminino. A matriarca ficara viúva há tanto tempo que o único vestígio de seu marido era um retrato na parede. Ele tinha desaparecido das conversas e, acredito, da memória das pessoas que viviam naquele apartamento. Tia Amélia era separada do marido e o filho deles morava em São Paulo. Minha sogra ficara viúva há cinco anos e Tia Hortência enviuvara no ano passado.

 

Eu me sentia estranho naquele ambiente. Era muito bem recebido, tratado como um rei com todas aquelas mulheres me servindo e tentando me agradar, mas minha opinião não era levada muito a sério. Faziam meu prato, indicavam a hora de ir para a praia, a que hora voltar, qual programa fazer, que bonde ou que ônibus tomar para ir à cidade. Como não adiantava resistir, eu soltava o corpo e deixava que a onda me levasse. Sabia que ela, ao final, me traria de volta para a praia.

 

As conversas giravam em torno da família, dos amigos, das parceiras de jogo, dos nascimentos, das mortes, dos casamentos, do preço da carne, das tarefas da casa. 

 

A passagem de ano, no apartamento da D. Adélia, era um acontecimento memorável. Umas vinte pessoas participavam da ceia, preparada pela tia Amélia, cozinheira de mão cheia. Falavam todos ao mesmo tempo e não era raro surgirem discussões acaloradas sobre os assuntos mais disparatados. Eu ficava mineiramente calado, estranhando aquela algazarra tão diferente das reuniões da minha família. Apesar do estranhamento, eu me divertia muito.

 

No primeiro dia do ano a festa continuava com um entra e sai de parentes, vizinhos e amigos que iam levar seus votos de paz e prosperidade para o Ano Novo, comer as deliciosas rabanadas da D. Adélia e arrematar as sobras da ceia farta. Nos dias seguintes era aproveitar as maravilhas de Copacabana. Raquel e eu gostávamos de andar de mãos dadas pelo calçadão, olhando a espuma branca das ondas que nunca paravam, cantarolando: “Existem praias tão lindas, cheias de luz. Nenhuma tem os encantos que tu possuis...” A música sempre foi um laço de união entre nós. Aquela, particularmente, nos enlevava. Copacabana despertava em nós um desejo terno e envolvente, uma alegria por estarmos juntos, por termos encontrado um ao outro. Aquela atmosfera de beleza e sensualidade nos dava um grande contentamento e uma determinação de fazer crescer nosso amor. Um amor para a vida toda.

 

Em 66 as coisas não seguiram este script de comédia romântica. O dilúvio que começou no dia 2 estendeu-se pelos dias seguintes. O que provoca tanto sofrimento, quando ocorre uma catástrofe, não é tanto a manifestação violenta da natureza, mas a pobreza que ela revela. A chuva lavou os morros cariocas, arrastando a fina camada de terra que cobria a base rochosa e os barracos mal dependurados nela. Com os barracos foram arrastadas inúmeras vidas. Falava-se em cem, duzentas, duzentas e cinqüenta pessoas mortas. De repente ficou escandalosamente exposta a miséria de uma população abandonada à própria sorte.

 

As enchentes castigavam não apenas o Estado da Guanabara, todo o Estado do Rio de Janeiro estava debaixo d’água. A BR-3, estrada para Minas, foi inundada pelo Rio Paraíba. As férias chegaram ao fim e ficamos presos numa cidade caótica, com perigo de desabastecimento, perigo de saques e ameaçada pela possibilidade de um surto de tifo. Raquel e eu ficamos apavorados. Vinícius e Letícia eram muito pequenos para ficarem expostos a tanto risco.

 

− Não falei com vocês que era loucura trazer as crianças? − disse D. Dinorah.

 

− Não fale assim Dinorah, não adianta ficar recriminando os meninos, eles já estão muito preocupados − interveio Tia Amélia.

 

− O que adianta preocupar agora... deveriam ter pensado antes, ora! Agora ficamos todos neste apuro; esta noite eu nem dormi direito.

 

− Você se preocupa com tudo. Parece maluca!

 

− Pois eu fiquei muito feliz por conhecer este garotinho lindo − disse Tia Hortência, sacudindo o pé gorducho de Vinícius − venha cá Paulo, vamos tomar uma cervejinha para relaxar. Logo, logo, tudo se resolve.

 

− Tia Hortência era uma pessoa alegre, seu espírito era de não se preocupar muito, encontrando prazer nas coisas simples da vida, como uma cerveja gelada acompanhada de um pastel de camarão.

 

Enquanto bebericava com Tia Hortência, ouvia um novo tipo de trovoada vinda da cozinha. A discussão entre as duas irmãs durou um tempão. Procurei Raquel para tomarmos banho juntos, a única oportunidade de intimidade naquele ambiente superpovoado.

 

− Já tomei banho. Paulo, numa situação destas você ainda fica pensando nisso?

 

Coloquei uma cadeira na minúscula varanda que dava para a sala e fiquei pensando na vida. Aos poucos as vozes interiores foram superando as conversas de dentro de casa. Fiquei pensando nos meus filhos, nos riscos que estavam correndo porque eu os havia trazido para o Rio. Pensei no meu pai. Ele tinha morrido há seis meses, com apenas cinqüenta e três anos, deixando oito filhos, cinco dos quais abaixo de dezoito. Eu, como mais velho, me sentia responsável por ajudar a cuidar dos mais novos. De repente tomei consciência do peso da paternidade: ter várias pessoas dependendo de mim para sustentá-las, protegê-las, orientá-las na vida. Nas minhas escolhas e decisões teriam que pesar a segurança, o bem-estar e o futuro deles.

 

 

 

A campainha tocou. Fui atender com o Vinícius no colo, quando abri a porta lá estava meu pai, a barba por fazer, todo sujo de terra: o terno, os cabelos, as sobrancelhas.

 

− Oi... te assustei?

 

− Não, é que o senhor está todo sujo.

 

− Está tudo bem? – disse ele tentando entrar na sala. Eu fiquei na frente impedindo-o de passar. Mamãe e meus irmãos ficariam apavorados vendo-o naquele estado. Ele me olhou com tristeza.

 

− Já estou indo, vim só para saber como vocês estão passando.

 

− Este é o Vinícius, meu filho. – Ele esboçou um sorriso e foi embora. Fiquei parado, olhando para a porta fechada...

 

 

 

−Você está dormindo, Paulo? Vem jantar. Atende esta porta, Amélia!

 

Durante o jantar fiquei mais calado que de costume. O sonho com Papai me perturbava. Via seu rosto me olhando com ternura, seus olhos muito azuis turvados pela tristeza. Não entendia porque impedira a entrada dele em sua própria casa. Sentia que era relevante eu estar carregando o Vinícius, mas não atinava para o significado disso.

 

− Preocupa não, Paulo. Pelo menos a chuva diminuiu. Amanhã ela para, você vai ver. – D. Dinorah tentava me acalmar. Para compensar a recriminação que fizera, redobrou os cuidados com Raquel e comigo.

 

Ficamos mais dois dias esperando que o Paraíba baixasse. De manhã, estava ainda na cama e ouvi pelo rádio a tão esperada notícia da liberação da BR-3. Arrumamos as malas rapidinho, aceleramos as despedidas e embarcamos no DKW 1964: Eu, Raquel, as duas crianças, minha irmã e Nair. A irmã de Raquel precisava retornar a Belo Horizonte.

 

Era sábado, tinha parado de chover, o dia estava claro e a atmosfera leve, o ar limpo. Na subida da Serra de Petrópolis Letícia vomitou, o primeiro contratempo. Paramos para limpar o banco e trocar a roupa da menina. Aproveitamos para comprar um cacho de bananinha ouro e seguimos viagem. Raquel e eu gostávamos de cantar nas viagens. Acompanhados por Nair e Mirtes percorremos o repertório de Chico Buarque: A Rita, Juca, Madalena foi pro Mar, Meu Refrão, Olé, Olá, Pedro Pedreiro...

 

Almoçamos num restaurante de beira de estrada, perto de Três Rios. Estávamos nos aproximando do Rio Paraíba.

 

− Paulo, por que estes caminhões estão parados?

 

− Talvez um acidente, Raquel.

 

Nair e Mirtes pararam de brincar com Letícia no banco de trás.

 

− Mau sinal – disse Nair − não vem nenhum veículo em sentido contrário. 

 

Fomos avançando devagar. A fila tinha uns três quilômetros. Havia um aglomerado de pessoas no meio da estrada.

 

− O Paraíba saiu do leito, não está vendo? Está baixando. Ontem à tarde as águas vinham até aqui. Nesta toada, com sorte, amanhã a gente consegue passar.

 

Desci até a beira da água. Tinha um homem atravessando a estrada... de canoa. Nair e Mirtes foram ver o que se passava.

 

− Você não disse que as estradas estavam desimpedidas? − disse Nair com ironia.

 

− Foi o que eu ouvi no rádio − me defendi.

 

− Agora é pensar nas alternativas que temos. − Mirtes já na adolescência mostrava ser uma pessoa positiva, decidida.

 

Voltamos para dar a notícia à Raquel. Retornei até uma árvore que sombreava o acostamento, paramos e discutimos o que fazer. Voltar para o Rio era uma hipótese que eu nem cogitava, ficar ali esperando as águas baixarem era impossível, procurar um hotel, numa cidade próxima, poderia ser uma solução.

 

− E se fôssemos por São Paulo? − Eu propus. Nair argumentou que seria uma viagem muito longa e cansativa para as crianças.

 

− Passamos por um trevo faz pouco. Tinha uma placa indicando São Paulo -- Raquel abriu o mapa da "Quatro Rodas" e localizou a estrada. Ela era boa com mapas.

 

− Aqui está: Entramos em Três Rios, passamos em Paraíba do Sul, Vassouras, saímos em Volta Redonda, Resende, depois Cachoeira Paulista. Em Lorena viramos à direita, passamos por Piquete, Itajubá, Santa Rita do Sapucaí. Perto de Pouso Alegre pegamos a Fernão Dias e estamos em casa.

 

− Estamos em casa nada, − objetou Nair − de Pouso Alegre a Belo Horizonte são uns 400 quilômetros. Daqui a Pouso Alegre, outros 400.

 

− Pelo menos estaremos em Minas.

 

− “Quer ir para Minas, Minas não há mais. José, e agora?” – Nair gostava de me provocar; um dos motivos era meu apego a Minas e suas coisas. Ela e Raquel tinham nascido no Rio, em Vila Izabel.

 

− Vamos para Minas, mesmo que tenhamos que passar por São Paulo. – Todos acabaram concordando, vendo minha convicção.

 

− “Oh! Minas Gerais, oh! Minas Gerais, quem te conhece não esquece jamais, Oh Minas Gerais” − eu cantei e Nair replicou:

 

− “Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, cidade maravilhosa, coração do meu Brasil! – Para pacificar, cantei:

 

− “Coqueiro de Itapoã, coqueiro”... – desfilamos as canções praieiras de Caymmi.

 

Chegamos a Cachoeira Paulista com o sol se pondo. As mamadeiras do Vinícius, planejadas para uma viagem do Rio a Belo Horizonte, acabaram. Raquel bateu numa casa pedindo para usar a cozinha. Muito simpática, a dona da casa nos convidou a entrar e ainda fez um cafezinho.

 

Quando pegamos a estrada para Itajubá já era noite, à medida que subíamos a Mantiqueira surgiu um nevoeiro que ia se adensando. Dirigir à noite com neblina é terrível. Fomos a dez, vinte quilômetros por hora. Nair passou para o banco da frente e ia com a cara para fora da janela, vigiando. Raquel e Mirtes, apreensivas, iam caladas. As crianças dormiam serenamente. Foram algumas horas de tensão. Quando descemos para Itajubá, a cerração acabou. Pudemos viajar com maior velocidade, numa estrada vazia. A noite estava escura, sem lua e sem estrelas.

 

No banco de trás todos dormiram. Ao meu lado Nair lutava contra o sono, puxava conversa para nos manter acordados. O assunto foi escasseando e ela acabou dormindo também. Meu pai voltou ao meu pensamento. Lembrei-me de uma viagem que fizemos quando eu tinha uns dez anos. Visitamos uma tia em Betim. Na volta, quando chegamos na estação, vinha um trem na direção de Belo Horizonte. Não dava tempo para comprar passagem, embarcamos assim mesmo. Quando o Chefe do Trem chegou, papai tentou pagar a passagem, mas foi rispidamente advertido que as passagens deveriam ter sido compradas na estação. O Chefe chamou o Fiscal. Não teve jeito, tivemos que descer em Bernardo Monteiro. Papai teve que pagar uma multa e seu dinheiro não deu para comprar a passagem até Belo Horizonte.

 

Quando o trem partiu, ficamos sozinhos na estação vazia. Tinha escurecido. Naquela época não havia ônibus de Bernardo Monteiro para Belo Horizonte. A opção era ir a pé até Contagem. Papai propôs seguirmos a estrada de ferro por ser mais perto. Mamãe se opôs com veemência. Como atravessaríamos os pontilhões? Fomos pela rodovia. Papai ia carregando minha irmã de quatro anos, eu e minha irmã de seis anos íamos caminhando de mãos dadas com mamãe. A estrada era de terra e estava deserta. Andamos muito tempo. Passou um carro em direção a Bernardo Monteiro e parou. Papai perguntou se Contagem estava longe. Estava a cinco quilômetros. O carro se foi e continuamos andando. Minutos depois um carro, vindo de Bernardo Monteiro parou. O motorista abriu a porta e nos mandou entrar.

 

− Resolvi levar vocês até Contagem.

 

Quando chegamos em casa mamãe recriminou meu pai pela sua imprudência. Poderíamos ter pegado o trem que passaria mais tarde. Por muito tempo tive raiva de meu pai por nos ter colocado naquela situação. Agora fico envergonhado com este sentimento. Ele deve ter sofrido mais que todos nós. Fico imaginando sua aflição, seu sentimento de culpa e de humilhação.   

 

 

 

 Chegamos à Fernão Dias de madrugada. Eu estava exausto, mas queria continuar. Raquel brigou comigo até que eu parei o carro num posto à direita da estrada, fui para o banco do carona e dormi quase instantaneamente.

 

Quando eu acordei estavam todos dormindo. Raquel estava no banco do motorista, acordei-a, trocamos de lugar, liguei o carro e virei à direita na saída do posto. Rodei alguns quilômetros e me pareceu que já tinha passado por ali. Rodei mais um pouco e não tive dúvidas: estava na direção de São Paulo. Acordei Raquel, intrigado.

 

− Quando parei, o posto estava à direita, quando saí virei à direita, como é possível que eu esteja voltando na direção de São Paulo?

 

− Meu bem, enquanto você dormia rodei um pouco, mas fiquei com sono e resolvi parar e só achei um posto à esquerda.

 

Rimos, nosso humor continuava firme.

 

Raquel voltou a dormir. O dia estava clareando. Meu pai sempre chamava minha atenção para a beleza do amanhecer quando a barra do dia vem, anunciando o sol. “A luz ilumina não só a natureza, clareia também a alma da gente”. Fui apreciando a paisagem. Passei por um pequeno povoado ainda adormecido e fiquei pensando nas pessoas que estavam naquelas casas. Estariam sonhando? Talvez uma mãe, acordada pelo choro do filho com febre, estivesse aflita, esperando para procurar um médico. Algum madrugador poderia estar preparando a marmita e saindo para o sítio, pois as vacas não distinguem o domingo dos outros dias. A velha solitária, acordada há muito, estaria esperando as primeiras batidas do sino para a missa das seis. E eu seguia conduzindo minha família para retornar ao ritmo da vida, depois das férias e daquela viagem um tanto aventuresca.

 

Passando pelo trevo de Três Corações reparei num barulho estranho no carro. Naquela época eu entendia os carros. Sabia calibrar vela, regular a marcha lenta, trocar bateria.

 

− Que barulho é este, Paulo – perguntou Raquel, acordando.

 

− Rolamento da roda traseira direita.

 

− É grave?

 

− É. Pode travar.

 

− Ah, meu Deus! Mais esta. Esta viagem não vai acabar nunca. Você mandou fazer revisão antes da viagem?

 

− Mandei, Raquel, olharam freio, correia dentada, regularam o platinado, limparam o carburador, verificaram o óleo da caixa, do setor de direção...

 

− Mas não este rolamento.

 

− Vou reduzir a velocidade e observar. Se o barulho não aumentar talvez dê para chegar.

 

Mas o barulho só aumentava. Nair e Mirtes acordaram e entraram na conversa. Fomos discutindo as alternativas. Paramos para trocar as fraldas das crianças e lhes dar mamadeira. Verifiquei a roda doente. Estava ardendo em febre.

 

− Vamos ter que procurar uma oficina. Qual a próxima cidade?

 

− Santo Antônio do Amparo, disse Raquel, olhando o mapa.

 

Seguimos, sob o protesto do rolamento:

 

− Ram... ram... ram... ram...

 

− Aguenta firme, rolamento. Estamos chegando.

 

Chegando a Santo Antônio do Amparo pouco depois das oito horas, nos indicaram a oficina do Nonô, estava fechada. Batemos na casa ao lado, uma moça simpática nos informou que ele tinha ido à missa. Era Helena, sua esposa. Eles tinham um casal de filhos mais ou menos da idade de nossas crianças. Quando o Nonô chegou, estávamos comendo biscoito de polvilho com café ralo e doce.

 

O rolamento estava em petição de miséria. Depois de lavado e lubrificado, continuava fazendo um barulho infernal.

 

− Espera ai, meu pai deixou um gerador para consertar e acho que o rolamento é igual ao seu.

 

Era igualzinho, SKF 6265. Nonô montou a roda e demos uma volta para testar. Quando voltamos à sua casa, Raquel tinha dado banho nas crianças, feito duas mamadeiras para o Vinícius e visitado o galinheiro. Nair estava carregando o filho do Nonô e Mirtes empurrava a filha numa gangorra amarrada no galho de uma mangueira. Foi uma briga para sairmos sem almoçar, mas tivemos que aceitar uma dúzia de ovos e um saquinho de farinha de “munho” para não fazer desfeita.

 

Apesar do cansaço estávamos animados. Raquel e Mirtes comentavam o filme “A Noviça Rebelde” que tínhamos visto no Rio.

 

− É um filminho interessante – comentou Nair.

 

− Filminho! – protestou Mirtes – foi o melhor filme que já vi na minha vida.

 

− Filme é “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”. Aquilo sim é cinema.

 

− Não te entendo, Nair, você vive metendo o pau no cinema nacional – retrucou Raquel.

 

− A maioria é uma porcaria mesmo, mas este é baseado no Guimarães Rosa e isto faz toda diferença. E você, Paulo, gostou do “Meu Japão Brasileiro”?

 

− Taí, gostei. Não é o melhor Mazzaropi, mas traz pra tela o povo, sua realidade...

 

− O povo! Vocês da esquerda enchem a boca: POVO. Onde estava o povo em 64?

 

− Mas o povo elegeu o Israel Pinheiro em Minas e o Negrão de Lima no Rio – falei procurando mostrar mais convicção do que de fato tinha.

 

− Israel Pinheiro é um grande “revolucionário”! Ele é um conservador, Paulo.

 

− Foi uma vitória da oposição – interveio Raquel.

 

− O que mostra que nem todos estão de acordo com os militares – disse Mirtes, entrando na conversa.

 

− E a traulitada veio em seguida. O AI 2 acabou com a festa. Não adianta, os militares estão no poder e, pelo visto não vão sair tão cedo – retrucou Nair, com veemência e desalento.

 

A discussão continuou com Raquel e Mirtes tentando encontrar motivos de esperança e a Nair destruindo qualquer possibilidade de otimismo.

 

Eu me calei. Aquele assunto me causava mal estar. Os sonhos dos tempos de universidade foram destruídos pelo poder das armas. O povo, destinatário das reformas de base que pretendíamos fazer, não se manifestou e quando o fez foi em apoio aos conservadores. Eu estava casado e tinha dois filhos para criar. Tinha um bom emprego, com amplas perspectivas de sucesso na carreira. A vontade era cuidar da minha vida. Mas... e minhas responsabilidades sociais?

 

Papai uma vez me disse que admirava meu idealismo, minha preocupação com a sociedade e com a situação dos pobres, mas eu deveria cuidar também do meu futuro. Fiquei pensando na sua vida de trabalho e de luta para nos manter, pagar nosso colégio, nos ajudar a atravessar a barreira do vestibular, colaborar conosco no início do casamento. Ele também se preocupava em ajudar os outros, mas de uma forma concreta, na Conferência de São Vicente. De repente o sonho que tive no Rio ficou mais claro: eu estava assumindo o seu lugar assim como o Vinícius um dia assumiria o meu.

 

Vinícius chorou com fome. Cessa tudo, discussão, elucubrações, dilemas morais. As necessidades fisiológicas de um bebê se impõem de forma absoluta.

 

O resto daquela viagem transcorreu sem maiores novidades. Por volta de uma da tarde chegamos finalmente à casa de mamãe em Belo Horizonte, que nos aguardava ansiosa. A primeira coisa que a Raquel fez foi ligar para o Rio. D. Dinorah, sem notícias desde nossa partida, estava desesperada. Foi uma choradeira pelo telefone.

 

Contamos nossa aventura enquanto comíamos o arroz de forno da mamãe, cheio de frango desfiado e banana, coberto de queijo e gratinado. Uma delícia.

 

À tardinha estava conversando com mamãe, ambos sentados na velha cama de casal que ela compartilhara com papai durante tantos anos. Mirtes entrou no quarto pedindo dinheiro para comprar o lanche. Mamãe pegou o paletó de casimira de papai, no mesmo lugar onde ele o pendurava dentro do guarda roupa, tirou de um dos bolsos a surrada carteira de couro e dela o dinheiro solicitado. Meu pai ainda reinava naquela casa.  

 

Bem cedo, no dia seguinte, peguei a estrada para Ipatinga, levei minha família para casa e fui exercer o ofício de PAI. 

 

 

 

 

 



publicado por quemcontaumconto às 00:28
Sexta-feira, 01 de Junho de 2012

Ildeu Geraldo de Araújo (16/03/2010)

 

O vagão do Noturno estava lotado. A maioria dos passageiros embarcou em Ipatinga, como Paulo e Raquel.  Paulo não conseguira um leito; decidiu, com Raquel, ir de poltrona mesmo para não terem de passar o Natal longe de suas famílias. Raquel, com a Letícia no colo, fechara os olhos na esperança de cochilar, ao menos. Era impossível.

No banco da frente o Capitão Müller discorria, numa altura insuportável, sobre o AI 5 para o Dr. Sérgio:

− Finalmente a revolução abandonou sua timidez.

Todos estavam incomodados com aquela conversa que não os deixava dormir mas quem iria reclamar do chefe da segurança da Empresa?

 − Gostaria de estar na ativa, participando da luta. A hérnia de disco me tirou muito cedo da carreira, nesta altura já seria coronel. Até hoje não posso ouvir uma banda de música tocar um dobrado, meus olhos se enchem d’água. Aos quarenta anos o Capitão era um homem de ombros largos, cabelos claros e olhos azuis, denunciando sua ascendência germânica. Adaptara-se com muito custo à vida civil, mas não dispensava a jaqueta verde-oliva.

− Sua participação tem sido muito importante − bajulou o Dr. Sérgio. – O senhor ajudou a limpar a Baixada.

Dr. Sérgio era bom médico, mas tinha uma ambição doentia pelo poder. A amizade com o Capitão poderia lhe dar a chefia do serviço médico da Empresa. Grandes entradas denunciavam uma calvície iminente o que não atrapalhava seu sucesso com as mulheres.

Com preocupação, Raquel sussurrou ao ouvido de Paulo:

− A Terezinha me disse que na chegada a BH eles recolhem as carteiras de identidade e consultam uma lista, se o nome estiver nela a pessoa vai direto pro DOPS. Será que você corre algum risco?

O rosto largo de Raquel, seus olhos castanhos emoldurados pelas sobrancelhas grossas e arqueadas, os lábios carnudos conservavam toda sua beleza, mas a aflição crispava seu semblante.

− Não, querida, eu não fiz nada − Paulo tentava ser convincente. Lembrava-se do curso de mecânica que organizara com o Sindicato.

− E suas reuniões com o sindicato?

− Não, Raquel, o curso nem chegou a funcionar. Isso aconteceu em 63, com certeza já esqueceram , são cinco anos.

Paulo fechou os olhos, queria encerrar aquela conversa sussurrada. Fora militante da JUC, nos tempos de escola, e tentara conciliar sua atuação como engenheiro e empregado de uma grande empresa com seus ideais. Agora tinha medo das consequências.

− Ditadura... eles nos forçaram a isso. Não queríamos uma ditadura. Era só uma refrega, limpeza rápida do terreno e tudo voltaria ao normal, mas eles insistiram na subversão, no confronto.

O Capitão Müller dizia isto com os olhos brilhando de prazer.

− Há males que vêm pra bem, disse o Dr. Sérgio. Agora poderemos passar este pais a limpo.

O Capitão Müller engoliu azedo aquele “nós”.

− É uma tarefa e tanto, mas o exército tem força moral e competência para a empreitada.

Paulo queria parar de ouvir aquela conversa. A frustração, a raiva, a impotência e, principalmente, o medo lhe tiravam o fôlego. Abotoou o blusão, a temperatura estava baixando, eles deviam estar na altura de Barão de Cocais. Viu que Raquel estava chorando, seu desespero aumentou.

− Se você for preso e perder o emprego, o que será de nós?

− Pelo amor de Deus, não vai acontecer nada disso.

Letícia acordou, sugou com sofreguidão o seio oferecido. Paulo ficou enternecido com a visão da mãe alimentando sua filha. Ela era linda, risonha, ativa. Seus olhos devoravam a novidade do mundo cheio de luz, cores e sons. Quanta coisa para descobrir, quantas possibilidades. As duas dependiam dele. O peso o fez encolher−se. Em busca de consolo e de força, ele rezou.

− Tem que cassar, este congresso é um antro de subversivos e corruptos. Esse Márcio Moreira Alves devia ser fuzilado! − O Capitão estava colérico. 

O chefe do trem anunciou Sabará, a próxima parada. Paulo sentiu um frio na barriga. Raquel olhou aflita para ele.

− Será... quem sabe você conversa com ele, pede ajuda?

− Nem pensar.

O Capitão levantou e olhou ostensivamente para o seio exposto de Raquel, pois Letícia voltara a dormir:

− Que menina linda! − E saiu rindo na direção da privada.

− Filho da puta – disse Paulo entre dentes − e você ainda quer que eu peça penico pra este...

O Dr. Sérgio se virou para trás olhando cobiçoso para Raquel, que abotoava a blusa:

− Algum problema, Paulo?

− É a lista, Dr. Sérgio, será que o Paulo... 

− O Paulo tem culpa no cartório, Raquel?

− Não, mas tem muito dedo-duro por aí.

− A Raquel tá cismada à toa − disse Paulo irritado.

− Se você quiser, eu falo com o Müller, ele é gente boa.

− Precisa não, é cisma da Raquel − atalhou Paulo.  

Quando o Capitão voltou ao lado de Sérgio, os dois passaram a conversar em voz baixa.  Virando-se para o Paulo, o Capitão provocou:

− Preparado para descer em BH?

− É claro, Capitão.

− Bom, quem não deve não teme, já quem deve vai ter que pagar, ah, isto vai...

Voltou a conversar, em voz baixa, com o Dr. Sérgio.

A pobreza da periferia de BH desfilava do lado de fora do trem. O ar se negava a encher os pulmões de Paulo.

− Você devia ter ficado calada. − A aflição transparecia nos olhos molhados de Raquel.

O trem apitou ao passar pelo viaduto da Silviano Brandão. O ruído das rodas, tropeçando nas emendas dos trilhos, ficava cada vez mais alto. As batidas do coração de Paulo superavam o barulho exterior. Ao descer do trem, carregando as malas e toda a tralha que acompanha a viagem de um bebê, Paulo ouviu, atrás de si, um fragmento da fala do Capitão Müller: “...nada, é um porcaria dum inocente útil... um berdamerda...”



publicado por quemcontaumconto às 01:12
Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

 

Ildeu Geraldo de Araújo − 14/05/2011

A angústia me acordou de madrugada. A escuridão do quarto não me deixava enxergar nada. Será que fiquei cega? O mostrador do relógio do Paulo, em cima do criado mudo, mostrou-me que minha cegueira era da alma. Chorei baixinho para não acordá-lo, até que o sono venceu a dor que me apertava o peito.

− Acorda dorminhoca, o trem sai às oito e já são seis e meia.

Uma das coisas que aprendi, nestes seis meses de casado, é que Raquel não é de acordar cedo. Acho que nunca encontrarei a mesa do café posta, o pão fresquinho já com a manteiga e a laranja descascada.

Quando terminei de fazer o café voltei ao quarto, ela tinha dormido de novo. Olhei-a com ternura e puxei o lençol, desvelando, devagarinho, a formosura de Raquel, atrás do baby-doll de cetim. A barriginha grávida aumentava sua beleza jovem. Ela agarrou o lençol e se cobriu de novo.

− Me deixa dormir só mais um pouquinho.

Chegamos à estação junto com o trem. Embarcamos depressa e o trem partiu logo em seguida.

− Olha Raquel, estão fazendo a corrida do aço. Aquela fumaça vermelha é óxido de ferro que se forma quando o oxigênio é soprado dentro do gusa líquido para eliminar o excesso de carbono.

Depois da aciaria, o alto forno desfilou pela nossa janela, seguido pela sinterização. Antes da coqueria, o trem virou à esquerda tomando a direção de Vitória. Precisava ir a Colatina comprar madeira para a embalagem das bobinas e decidi levar Raquel. Depois de resolver os problemas em Colatina, iríamos passar o fim de semana em Vitória.

Espero que minha rival tenha ficado para trás e que o Paulo seja só meu neste fim de semana. Fico comovida com o entusiasmo dele pela usina, mas tenho me sentido tão abandonada, tão sozinha.

− Aqui, Raquel, vai ser o aeroporto. A pista vai comportar qualquer tipo de avião. À direita vamos construir uma fábrica de cimento para aproveitar a escória do alto forno.

− Paulo, quanto tempo ficaremos em Colatina? Seria tão bom se fôssemos direto para Vitória. Estou doida pra ver o mar.

− Nem pensar. O estoque de madeira está muito baixo. Se deixo a usina sem embalagem, paro a expedição e o faturamento.

Ele fala como se a usina dependesse só dele. Eu dependo dele, minha felicidade, meu futuro, minha vida. Concentrei-me na paisagem. O rio Doce corria pachorrentamente espalhando suas águas pela planície do vale. Uma prainha de areia branca me transportou para Itacuruçá.

Lua de mel numa ilha. Não era uma ilha deserta, mas o hotel estava vazio. Éramos apenas dois casais de hóspedes, com o pessoal do hotel à nossa disposição. Ficamos numa cabana no meio das árvores. Acordávamos de manhã ouvindo o marulhar das ondas e o canto dos passarinhos. Foi uma semana de total comunhão. Paulo procurando adivinhar meus desejos. No dia seguinte ao nosso regresso, a usina tirou meu amor dos meus braços.

− Olha o rio Doce, que beleza. Esta ponte de madeira tem seus dias contados. Vamos construir uma ponte de concreto e asfaltar a estrada até à Rio-Bahia.

− Ela é bem simpática, Paulo. É uma pena destruí-la.

Paulo sorriu para mim. Adoro seu sorriso. Os olhos brilhando, a boca entreaberta mostrando o canino pontudinho no lugar de um dos incisivos. O rosto iluminado. Sua alma fica exposta, acessível.

− Você é muito romântica, querida. Como manter uma velha ponte de madeira, atravessando um rio com mais de cem metros de largura? Como escoar a produção da usina numa via tão precária?

− Cachoeira Escura, Cachoeira Escura. Próxima parada.

− Pena que não se pode construir uma usina hidroelétrica aproveitando as corredeiras de Cachoeira Escura. Uma barragem nesta baixada iria inundar meio mundo.

Disse pra mim mesma: Fechou a janela da alma. O engenheiro assumiu seu posto. Será que ele não vê a beleza dessas águas borbulhando entre as pedras. Que pena aprisionar esta correnteza numa tubulação e estrangulá-la entre as pás de uma turbina.

Quando Paulo abriu a pasta, retirou dela os processos de compra e começou a estudá-los, virei o rosto para a paisagem, escondendo as lágrimas. Estava sozinha naquele vagão cheio de gente, como estive sozinha nos últimos seis meses numa cidade fabricada, uniforme, sem praça nem vitrines, sem um cinema decente, sem uma confeitaria onde tomar chá com amigas antigas que ali não estavam.

− Vamos almoçar, meu bem? Fiquei com pena de acordá-la, mas já é meio dia.

A Raquel anda esquisita, calada, distante. Fica tão difícil conversar com ela. Será por causa da gravidez? Preciso arranjar um jeito de animá-la.

− Vamos tomar uma cervejinha, querida? Esqueci, você não pode. Uma Coca? Quer o almoço com frango ou com carne de boi?

− Com frango, o bife deve estar uma sola.

− Você viu, Raquel, o comício do dia 13, no Rio, em frente à Central do Brasil? Agora vai, o Jango resolveu fazer as reformas de base.

− Isso não vai dar em nada.

− Que pessimismo, querida. A reforma agrária vai sair do papel. Vão desapropriar as terras às margens das estradas federais. Acho que deviam incluir os vales dos grandes rios como o rio Doce.

Ela está esquisita mesmo. Sempre foi tão entusiasmada com as reformas. Fiquei falando sozinho o almoço inteiro.

− O que foi, Raquel? O que está te amolando?

− Nada não. Este calor me deixa desanimada.

Eu perguntei. Se ela diz que não é nada, o que eu posso fazer? Deve ser a gravidez. Quando nosso filho nascer ela esquece todo esse incômodo. Tenho tanta coisa para ensinar a este menino. Ele vai viver num mundo melhor, com menos desigualdade. Um mundo com mais justiça, mais...

Paulo já dormiu. Quando achei que iríamos conversar, ele dorme. Será que não percebe minha agonia? Enfarou de mim. Deve estar me achando uma baleia com este barrigão, e chata ainda por cima.

Fico pensando no contraste do trem veloz acompanhando as águas vagarosas do rio. À noite, o trem chegará ao litoral, as águas estão aqui e já chegaram ao mar, no seu contínuo fluir. Avisto um bando de garças pousadas num banco de areia no meio do remanso. Lá longe, na outra margem, o gado pasta. Esta beleza melancólica combina com o ritmo de minha alma. Outro trem passa velozmente no sentido contrário, atrapalhando minha contemplação. Meus olhos acompanham o último vagão se afastando na longa reta. O início de meu casamento é parecido com estes trilhos: eu e Paulo seguimos juntos mas separados. "As paralelas só se encontram no infinito".

Paulo acorda, sinto seu rosto encostado ao meu. Passa o braço sobre meu ombro e com a outra mão acaricia minha barriga. Beija, carinhosamente meu rosto e sussurra ao meu ouvido:

− Como você consegue ficar mais linda a cada dia?

− Linda? Com esta barriga e essa nuvem escura em cima de minha cabeça?

− A barriga lhe deixa irresistível e a nuvem escura, vou dissolvê-la com o poder dos meus beijos.

− Sossega, Paulo. Estão nos olhando.

− Estão é com inveja de mim.

Não resisti, correspondi aos seus beijos. Quando quer, ele sabe ser encantador. Espera e esperança é o que vejo à minha frente. Tem um jeito de as paralelas se encontrarem: se a distância entre elas for zero − meu projeto.

 

 



publicado por quemcontaumconto às 23:09
Sábado, 10 de Março de 2012

Ildeu Geraldo de Araújo – 11/10/2011

 

− Ah, Loló, Margarida foi como uma irmã para mim...

Heloísa estremeceu. Não era chamada pelo apelido há uns trinta anos. Ficou de pé, ao lado do caixão de sua mãe, recebendo os pêsames dos parentes e amigos da família, constrangida por não se lembrar de muitos deles. Sua carreira a afastara daquele universo por tempo demais.

A sala de visitas tinha sido transformada em velório; ficou cheia a tarde toda e boa parte da noite. Lá pelas onze horas ficaram apenas as pessoas mais próximas. Heloisa voltou para junto de sua mãe e contemplou, por um longo tempo, o rosto sem vida, mas envolto numa grande serenidade. Foi chegando, vinda de longe, aquela voz que sempre a guiou e consolou:

... chora não, Loló, não foi nada, deixa a mamãe passar remédio, vou acabar com esses marimbondos, eles vão ver...

... pensa nisso não, filhinha, vai demorar muito, todo mundo morre, mas você ainda é novinha...

... não, Loló, não dá certo. Mãe é mãe e professora é professora. Você vai pra turma da D. Violeta...

... isso é natural, filhinha, você virou moça, o incômodo virá todo mês, mas dura só três dias, depois passa...

... ah, minha filha, que voz linda; canta a Ave Maria pra mim; não sabia que tinha uma cantora em casa...

... que Deus a proteja; cuidado, Loló, Rio de janeiro não é Bom Jesus, cuidado minha filha ...

Heloisa se sentiu muito cansada, sentou-se num dos bancos, recostou a cabeça na parede, fechou os olhos. Suas lembranças continuaram, agora, não como o fluir alegre de um regato, mas como um turbilhão: Rio, São Paulo, Paris, Nova York, Milão... Ela cantando ... vocalizes... agudos impossíveis... árias de perder o fôlego... sono... sonho...

Aplausos, muitos aplausos, ela estava entrando num imenso salão de baile rodeada por damas e cavalheiros ricamente vestidos. Os rostos cobertos por máscaras coloridas, enfeitadas com lantejoulas. Ela usava um longo vestido de seda, ornado com pedras coloridas.  Era conduzida por um homem com uma roupa bizarra, que cantava em francês: “…Voici ma Juliette!” Sabia que tinha de cantar alguma coisa, mas não se lembrava. Felizmente os cavalheiros fizeram uma roda em volta dela, louvando, em coro, sua beleza, dando-lhe tempo de se recompor. Ouviu sua voz aguda e límpida como um cristal, entoar: “Um mundo de encantamento brota diante dos meus olhos. Tudo me fascina e me inebria! E minha alma encantada é impelida para a vida, Como um pássaro voaria para o céu!” Aplausos, aplausos... Estava agora vestida como uma princesa da China, propunha a seus pretendentes três enigmas que não conseguiam resolver e a deixavam sozinha no imenso salão imperial... Sob o ritmo vibrante das castanholas, Carmem evoluía alegremente pela praça de Sevilha: “O amor é um pássaro rebelde”. Aplausos...  Agora era a Bela Adormecida sendo acordada por um beijo...

− Heloisa, Heloisa.

Heloisa demorou alguns segundos para voltar do mundo dos sonhos.

− Padre Carlos está aqui.

Padre Carlos estava junto ao caixão de Dona Margarida. Heloisa permaneceu sentada no banco, observando, pelas costas, aquele homem que fora tão importante em sua vida. Devia estar com quase setenta anos, mas continuava esbelto e aprumado, o que aumentava sua altura. Os cabelos fartos e um pouco longos estavam totalmente brancos. Se estivesse de fraque seria a perfeita figura de um maestro. Heloisa foi para junto dele. Ele continuou olhando para o rosto de Dona Margarida.

− Ela está tão serena.

− Mamãe sempre foi assim. Serena e transmitindo serenidade.

− Uma bela maneira de entrar na eternidade. Ela agora está diante da Verdade. Acabaram-se todas as dúvidas.

−O senhor tem dúvidas, Padre Carlos?

Ele finalmente se voltou para ela e sorriu.

− Quem não as tem, Heloisa? Fé não é certeza. É um risco, uma esperança. Se não parecesse herético eu diria que é uma aposta.

− Sempre pensei em você como uma pessoa que tem todas as respostas, a verdade.

Ele olhou para ela com muito carinho e sorriu.

− O tempo é muito amoroso com você. Está cada vez mais bonita.

− São seus olhos. Seus olhos e a perícia dos cirurgiões. Na vida que escolhi, ou que escolheram para mim, é proibido envelhecer.

− Vejo certa recriminação na sua fala. Fui um dos que “escolheram” sua vida?

− Sem dúvida, mas não estou reclamando, de forma nenhuma. Minha vida tem sido muito boa.

Agora eles estavam praticamente sozinhos na sala velório. As outras pessoas estavam na varanda contando causos ou na cozinha bebendo café ou algo mais reconfortante.  Foram para o canto da sala e se sentaram num sofá.

− E sua vida, Padre Carlos, tem sido boa?

− Como Deus é servido, Heloisa. Há sempre um risco enorme de o padre cair na rotina e se transformar num “burocrata do sagrado”, como diz um colega.

Conversaram longamente sobre a vida e as experiências que tiveram. Padre Carlos estava encantado com a mulher na qual Heloisa se transformara: culta, viajada, sensível, dona de uma aguda percepção da vida e do ser humano. Sem se importar com a prudência lhe confessa:

− Aquele beijo, Heloisa, foi uma experiência indelével em minha vida.

Heloisa levou um choque. Jamais imaginara ouvir isso de Carlos. Ela era jovem e estava apaixonada. O beijo foi um impulso irresistível e as consequências, para ela, foram drásticas. Teve de deixar a segurança e o conforto de seu lar. Abandonar o descompromisso e a irresponsabilidade de uma adolescência apenas começada e se lançar no mundo, na dureza da vida adulta. Tinha menos que 17 anos...

− Pois para mim foi apenas o impulso de uma adolescente boba – mentiu com raiva − tive outros bem mais ardentes e prazerosos.

− É, com certeza você teve.

Ficaram calados. O dia começava a clarear. Ele se levantou, estendeu-lhe a mão.

− Nos vemos antes do sepultamento. Virei celebrar as exéquias de sua mãe.

Ela se levantou, olhou através da cortina de suas lágrimas, para o fundo dos olhos dele, ignorou sua mão estendida e lhe deu um abraço que parecia não ter fim.



publicado por quemcontaumconto às 23:54
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