Quinta-feira, 03 de Março de 2011

“CARPE DIEM”

Ildeu Geraldo de Araújo

Um iate foi encontrado nas proximidades da Ilha da Trindade com sete corpos a bordo, mortos supostamente por envenenamento. A tripulação era formada pelo Capitão Loukas Vyntra, grego, 69 anos e a comissária Frida Vyntra, alemã, 59 anos.  Os passageiros eram todos brasileiros e engenheiros. A lista completa é a seguinte: Roberto Mourão, 64 anos, Antônio Rodrigues, 63 anos, Alberto Guimarães, 64 anos, Paulo Penido, 65 anos e Juliano Ferreira, 63 anos.

O barco dispunha de um sistema de som que gravou as conversas entre as pessoas.

 

Eis a transcrição da gravação:

− Senhores, o Engenheiro me orientou a dar- lhes as boas vindas e a proporcionar-lhes todas as comodidades. Espero que estejam bem instalados em seus camarotes. O jantar será servido dentro de duas horas. Estamos a vinte milhas do litoral.

− Qual o seu nome, capitão?

− Engenheiro Mourão, o senhor pode me chamar de Capitão.

− Qual o nosso destino?

− Ilha da Trindade, Engenheiro Rodrigues.

− Ilha da Trindade? Pelo que sei não tem nada lá. Não estou gostando. Por que todo esse mistério? Quando chegaremos lá?

− Em quatro dias. Não se preocupe, Engenheiro Penido, minhas ordens são para lhes proporcionar uma viagem confortável e inesquecível. Bem, senhores, teremos muito tempo para esclarecer todos os pontos. Tenho umas tarefas e proponho que os senhores tomem uma bebida no convés, enquanto esperam o jantar. Asseguro-lhes que teremos um verdadeiro banquete, pois nossa comissária, Frau Vyntra é, na verdade, uma grande chef. Com licença.

− Alguém sabe quem é este “Engenheiro” misterioso?

− Não faço a menor idéia, Paulo, sem dúvida é um cara muito rico.

− O convite que recebi dizia: “Roberto, conto com você para revivermos as aventuras de nosso cruzeiro de formatura.” Ele é da nossa turma, talvez um de nós.

− Foi uma viagem memorável. Ainda me lembro de cada detalhe.

− Você ficou a maior parte do tempo na cabine, Juliano. Vomitou até a alma.

− Foi só nos dois primeiros dias, depois eu me diverti à beça.

− Quem é o “Engenheiro”? É você, Roberto?

− Não tenho dinheiro para uma extravagância dessas. Se tivesse, Antônio, teria melhor uso para ele.

− O Alberto, que eu saiba, não é nenhum milionário. O Paulo está enrolado, como eu, em nossa sociedade. Resta o Juliano.

− Você descartou o Alberto muito depressa. Ele pode ter recebido uma herança.

− Você está querendo desviar o assunto, Juliano. Você é o principal suspeito, sua família é rica.

− Era, Antônio, a crise nos pegou de cheio.

− E este Capitão? Sua cara não me é estranha. Na nossa viagem não tinha um oficial grego?

− Você se lembra da Lola, Roberto? Que pernas! Ela parecia a Marlene Dietrich.

− Era Frida. Tinha um vozeirão.

− Lola, tenho certeza. Sonhei com ela a viagem inteira.

− Juliano, ela se chamava Frida Berthold, Lola era seu nome artístico.

− Bem, parece que o Alberto obteve informações privilegiadas.

− Pouco provável, Antônio, ele estava em lua de mel com a Flora. Seria um idiota se a trocasse pela Lola.

− Como está a Flora, Alberto. Vocês sumiram, não foram nas nossas festas de aniversário de formatura, numa mais vi vocês desde os anos 70.

− A Flora morreu no final do ano passado.

− Ô, Alberto, sinto muito.

− Como é que foi isso, rapaz?

− Câncer no útero. Durou um ano. Tempo suficiente para acabar com quarenta anos de ilusão. Me passa o whisky, Antônio. Você vive quarenta anos com uma pessoa e de fato não a conhece.

− O jantar está servido na sala de estar. Espero que gostem de “eisbein mit sauerkraut”.

− É ela, Antônio, a Lola. Bem apetecível ainda.

− Juliano, ela deve ter sessenta anos.

− Parece ter quarenta e cinco e não perdeu a chama no olhar.

− Como se chama a nossa cozinheira, Capitão?

− Frida Vyntra, minha esposa.

− Frida Berthold, Frida Vyntra. Ela não é a Lola que cantava durante os cruzeiros do Volendam da Holland American Lines, nos anos 70?

− Sim, Engenheiro Ferreira, fico lisonjeado que o senhor a ache atraente. 

− Capitão, por onde você andava nessa época?

− Eu era o imediato do navio.

− Por que a Frida não vem nos fazer companhia? Parece que estamos em família.

− Não é muito apropriado, Engenheiro Guimarães, mas se os senhores não fazem objeção...

− Frida, venha se juntar a nós. Vamos fazer um brinde, champanhe para todos, Capitão. “Carpe diem quam minimum credula postero”.

− “Carpe diem.”

− Traduz pra nós, Alberto.

− “Colhe o instante, sem confiar no amanhã.”

− Lola, você se lembra de nós?

− Do Alberto, não poderia me esquecer. Sei que todos estavam naquela viagem, mas não me lembro dos nomes.

− E por que você não poderia se esquecer do Alberto, querida?

− Não me constranja, Loukas.

− Nós ficamos juntos por uma noite, naquela viagem, Capitão. Lola, me diga uma coisa, pra que contar tudo à Flora?

− Eu era muito jovem, Alberto. As passageiras hostilizavam as artistas, nos tratavam com desprezo. Nós estávamos apenas tentando ganhar a vida.

− Epa, a coisa está ficando esquisita. Abra o jogo, Alberto, o que está acontecendo aqui? Qual o objetivo real desta viagem? Isto é um acerto de contas?

− Você tem alguma dívida comigo, Roberto? Sua consciência está pesada?

− Então você é o tal “Engenheiro”; organizou tudo e nos trouxe a uma armadilha. O que você está pretendendo?  Você me acusa de que?

− O que você fez, Antônio? Qual é a sua culpa?

− Cavalheiros, vamos manter a calma. Até o momento sabemos que a minha esposa dormiu com o Alberto, em sua viagem de núpcias. Como foi antes de nosso casamento, não tenho o que questionar. Frida contou à esposa do Alberto para se vingar do sentimento de desprezo. Flora então se sentiu no direito de uma desforra.

− Você, Capitão, certamente deu sua contribuição para a desforra?

− Qualquer cavalheiro faria o mesmo.

− A Flora ficou muito magoada com você, Alberto.

− Ela foi se consolar com você, Antônio?

− Comigo, com o Roberto, com o Paulo e com o Juliano, além do Capitão, enquanto você dormia embalado por Morfeu e Baco.

− Vocês eram os meus melhores amigos e me traíram, riram de mim e me apunhalaram pelas costas.

− Isto foi há quarenta anos, Alberto. Éramos jovens, estávamos embriagados de champanhe e do desejo de sorver a vida até a última gota.

− O que eu não consigo entender é porque a Flora me contou isto no seu leito de morte. Foi a última coisa que ouvi de seus lábios.

− Tome mais champanhe, Alberto. “Carpe diem”.

− “... quam minimum credula postero”.

 

Com estas palavras de Alberto a gravação termina.

***

 



publicado por quemcontaumconto às 21:31
Amigo,que maravilha! Cada dia escrevendo com mais vontade!
E eu cada dia te admirando mais. Abraço, Marcelle
marcelle a 4 de Março de 2011 às 00:47

Oi Marcelle, que bom que você gostou. O prazer de quem escreve e ser lido. Um abraço
quemcontaumconto a 4 de Março de 2011 às 21:24

Gosto de ver os latinistas colocando a cabeça de fora para ver se a rua está deserta ou se alguém passa por ali. nestas horas. Quando isso acontece, ganhamos o nosso tempo, porque há muita gente de plantão nestes caminhos da vida. E me veio à mente quando, no seminário, a gente traduzia o incontrolável Horácio naquelas tardes sonolentas da sala de aula. Quando meu filho casou, há alguns meses atrás, cantou na cerimônia um grupo de pequenos artistas ou de artistas ocasionais com o nome de Carpe Diem. Conversei muito com eles no final e não me souberam falar sobre a origem desta expressão. Bem... a gente vai somando essas coisas e sente que vai batendo uma saudade... uma saudade que dói, mas de um doído gostoso.. parabéns, Ildeu, gostei de seus contos. Bonitos e bem escritos - Jair
Anónimo a 5 de Abril de 2011 às 21:14

Pois é, Jair . As aulas de latim do ginásio serviram para alguma coisa. Hoje a moçada não tem a chance que tivemos de uma educação mais clássica.
Obrigado pela visita e volte de vez em quando pois tem sempre novidade. Espero pelo seu blog.
quemcontaumconto a 10 de Abril de 2011 às 12:30

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