Domingo, 13 de Março de 2011

Ildeu Geraldo de Araújo

Estava atrasado para a reunião em Santa Rita. Lembrei-me do Geraldo, um grande amigo que nasceu e mora lá. A filha dele tinha uma doença incurável. Fiquei com o coração apertado, imaginando a angústia que ele deveria estar sentindo. A dois quilômetros do trevo, não resisti à tentação e parei no posto para pegar um pão com linguiça. Quando entrei na lanchonete, quem eu vejo?

− Geraldo, você não morre tão cedo, estava pensando na Lucinha não faz dois minutos. Tudo bem?

− Oi, Francisco – ele me estendeu a mão, derrotado.

− Que cara é essa, rapaz?

- A Lucinha...

- Não me diga... Vocês foram para São Paulo com tanta esperança.

− É, nada deu certo. Tentamos de tudo. Ela foi só definhando. Foi um ano de agonia. Semana passada teria feito sete anos.

− Não foi melhor assim? Ela parou de...

− Melhor assim, melhor assim... tinha jeito de ser pior?

− Desculpa, Geraldo, não sei o que dizer.

− Então fica calado! Por que todo mundo acha que tem de falar alguma coisa, consolar? Não tem consolo. Só falta você dizer que foi a vontade de Deus.

Geraldo, na agitação daquele momento, derramou o café nas mãos e deixou cair a xícara. A garçonete veio em seu socorro com um guardanapo. Eu me aproximei dele e o abracei. Ele deitou a cabeça no meu ombro e chorou. As pessoas nos olhavam constrangidas. A garçonete, com toda delicadeza, nos conduziu para uma mesa afastada.

Fiquei olhando aquele homem chorar como uma criança e senti pena de ver meu amigo subjugado pela dor. Lembrei-me de uma passagem da Bíblia: “Ouviu-se um grito em Ramá, choro e grande lamento: é Raquel que chora seus filhos e não quer ser consolada, pois não existem mais.”

− Me perdoa, Francisco. Tenho segurado uma barra por causa da Dora. Tenho medo de que ela enlouqueça.

− Onde ela está?

− Foi pra casa da mãe, em Belo Horizonte. Estou indo buscá-la.

Geraldo ficou um tempo calado, olhando o borracheiro trocar o pneu de uma carreta.

− Fibrose cística. Uma merda de uma doença hereditária que atinge principalmente os brancos. Pelo menos nisso os negros levam vantagem. Os asiáticos também. Há uma produção exagerada de secreção que vai obstruindo os alvéolos pulmonares, impedindo a passagem do ar.

Geraldo falou longamente sobre a doença, sobre os tratamentos recomendados, citou os remédios que Lucinha havia tomado e os efeitos colaterais produzidos. Parecia que, encarando tecnicamente a doença, sua dor se tornava mais suportável. Então ele olhou para mim e disse:

− Você que é tão católico me responda: por que Deus permite que uma criança inocente, que nunca fez mal a ninguém sofra o que a Lucinha sofreu? “Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.” Deus quis isso?

− Ah, Geraldo, o que sei eu sobre a vontade de Deus? O que eu sei é que Jesus também sofreu.

Geraldo ficou em silêncio por um longo tempo.

− E o Augusto, como está reagindo?

Ele olhou para mim atônito, como se não compreendesse minha pergunta.

− Ah, o Augusto. Não sei dizer. Ando tão ocupado com a minha dor...

− Ele deve estar bem, Geraldo. Criança se recupera mais facilmente.

− Eu me esqueci dele completamente. A Ção deve estar cuidando dele. Ela sempre cuidou. Se não fosse ela não sei o que seria do Augusto. Ele ficou abandonado esse tempo todo. Eu e a Dora só tínhamos olhos, tempo, lágrimas, coração para a Lucinha.

As lágrimas voltaram a molhar a face do meu amigo. Ele agora sofria pelo filho esquecido.

− Vale a pena ter filhos, Geraldo? Correr o risco de vê-los sofrer ou de perdê-los.

− Você sabe a resposta. Você é que tem filhos. Seria melhor não ter tido a alegria de vê-los nascer, receber deles o primeiro sorriso, vê-los engatinhar, dar os primeiros passos vacilantes, correr pela casa, levantar para você os bracinhos pedindo colo, se jogar para você com toda a confiança? A dor da perda não apaga essas alegrias, apaga?

− Como você sabe de tudo isso se não tem filhos?

− Você me ensinou. Tenho acompanhado com admiração e bastante inveja sua vida.

Geraldo olhou para mim com olhos de gratidão, de repente se agitou:

− Francisco, e a sua reunião?

− Esquenta não. A reunião começa na hora em que eu chegar. Eu sou o cliente.

− Desculpe, amigo, tomei seu tempo. Mas foi bom ter te encontrado. Estava precisando de um ombro amigo. Foi uma feliz coincidência.

− Alguns chamam isto de graça.



publicado por quemcontaumconto às 22:49
É meio triste mesmo, pai, mas com esperança. Muito bonito. Parabéns!
Priscila a 15 de Março de 2011 às 19:48

Voce abordou com ternura e simplicidade uma realidade vivida por muita gente. Triste, mas gostei da sua maneira de escrever e de tratar do assunto. o coracao ainda esta apertado!
Marisa a 24 de Março de 2011 às 17:03

A abordagem é simples mas emocionante, em um momento dificil, as vezes basta estar perto. Muitos precisam entender isso.
Jailson Santos a 2 de Abril de 2011 às 17:49

Ainda que queiramos que tenha sido mera coincidência, há encontros que jamais foram ocasionais. O dedo de Deus vem desenhando o caminho por onde a gente passa sem contudo saber quem o traçou para nós. Há uma dinâmica envolvente e faz crescer o entusiasmo . Uma outra dinâmica faz o próprio conto se desenvolver e crescer em si mesmo pela construção de diálogos e tomadas de assuntos como forma de desviar a conversa e colocá-la onde a gente precisa conduzi-la. O conto da Graça tem seus condimentos próprios e me pareceram bem dosados, não deixando que o tema afunilasse, mas tivesse um desfecho que a gente não esperava viesse tão de supetão, causando um impacto que já estava delineado lá desde o começo. É como me fez ver as coisas este texto nas suas expressões, nas suas reticências e no seu conjunto. - Jair
Anónimo a 14 de Abril de 2011 às 18:38

Obrigado, jair.

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