Quinta-feira, 31 de Março de 2011

 

Roberto Jr. herdou do pai uma bolada e, paradoxalmente, o horror de pegar em dinheiro. Sua vida era bem mais fácil que a de seu progenitor, pois agora havia a internet. Ele mantinha um controle rigorosíssimo de suas aplicações e conta bancária. No ano 1999, Roberto entrou em pânico com o bug do milênio. Desaplicou todo seu dinheiro e comprou ouro. Quando o cataclismo previsto não se concretizou, ele voltou às tradicionais aplicações em CDB, LTN, Fundos DI e outros. Só não aplicava na bolsa pelo medo de perder, se bem que ficasse agoniado com os lucros que poderia ter ganhado nos períodos de alta. Mantinha na conta corrente três mil reais para as despesas cotidianas.

No dia 2 de janeiro de 2001, ao conferir seu extrato bancário, Roberto achou um erro de dez centavos. Ligou para o gerente que prometeu verificar. Para ficar livre do cliente inoportuno mas importante, ele mandou creditar em sua conta os dez centavos. Uma semana depois novo erro de dez centavos. Nova reclamação, resolvida do mesmo jeito. Na décima ocorrência Roberto foi ao banco. O Gerente lhe explicou que devia ser arredondamento, pois, como ele pagava todas as contas e despesas pelo banco, fazia muitas operações de pequeno valor.

Roberto telefonou para seus amigos contando o ocorrido. Nenhum deles tinha notado nada em seus saldos. Aliás, o controle que faziam de suas contas bancárias era bastante precário. Roberto estava convicto de que havia um complô muito bem estruturado para roubar os clientes dos bancos em pequenas quantias. Raciocinava que se fossem surrupiados dez centavos por semana dos cem milhões de depositantes da rede bancária brasileira, daria o valor de quinhentos e vinte milhões de reais por ano.

Elaborou um relatório com todos os dados e enviou uma reclamação formal ao Banco Central. Seis meses depois recebeu um pedido de informação sobre os prejuízos que ele teria tido e como a importância fosse irrisória o assunto foi arquivado.

Roberto entrou no blog do Noblat e postou o seguinte comentário:

“Existe um complô para roubar os correntistas dos bancos. A cada semana são retirados dez centavos da conta de cada correntista, como as pessoas não fazem um controle rigoroso de seus saldos estes débitos passam despercebidos. Os bancos elegam que é problema de arredondamento. Em um ano o golpe rende quinhentos e vinte milhões de reais.”

Os seguidores do Blog caíram de pau, acusando-o de paranóico. Como ele insistiu na denúncia foi convidado deixar os blogueiros em paz.

Nas semanas seguintes Roberto recebeu vários e-mails descrevendo problemas semelhantes aos dele. Roberto criou seu próprio blog. Em pouco tempo tinha muitos seguidores. Um dia seu computador morreu de uma infecção virótica extremamente virulenta. Com a persistência de um fanático, Roberto comprou um computador novo e continuou sua luta contra aquilo que ele denominou “O Monstro”.

Foi intimado a comparecer à DERCIFE – Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Informático e Fraudes Eletrônicas. Acusação: Pedofilia pela internet. No interrogatório ele se disse vítima de um complô cibernético em represália à denúncia que fez contra “O Monstro”. Na Delegacia ficaram impressionados com sua criatividade. Ficou detido para averiguações. Seu advogado o aconselhou a não insistir na história de complô e alegar problemas psicológicos. Ele manteve sua argumentação, pois tinha, não só a convicção de que estava certo, como acreditava que tinha a missão de salvar o mundo de uma ameaça terrível. Concluiu que o golpe dos dez centavos destinava-se a financiar uma operação bem mais abrangente.

 Como era muito rico conseguiu um habeas corpus. Transformou sua casa num quartel general. Contratou um especialista em segurança de sistemas digitais, comprou um super computador com um potente firewall e lançou, pela internet, uma convocação a todos estivessem dispostos a lutar contra “O Monstro”

No dia três de setembro de 2008 o Globo publicou a seguinte notícia: “Apagão da internet começou em Sorocaba, e afeta a rede de acesso à internet pela Telefonica. Prejudica os serviços em unidades do Poupatempo, delegacias da polícia civil, o Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN), o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), agências bancárias, casas lotéricas e empresas privadas, além dos acessos residenciais.”

Roberto estava eufórico. “O Monstro” começara a mostrar suas garras. Tentou falar com o Governador, usando seus contatos com um deputado, amigo da família. Foi atendido pelo Subsecretário de Comunicação Social que, após ouvir com contida impaciência, lhe disse: “Esperamos que seja um problemas restrito a São Paulo. Esta Telefonica é uma empresa muito confusa e incompetente. Em Minas ainda temos reflexo do maravilhoso trabalho feito pela Telemig. Pode ficar tranqüilo que estamos atentos”

Roberto, sabia que nada seria feito. Manteve a luta por mais algum tempo. Seus seguidores foram desanimando. Ele ficou sozinho. Desligou seu computador da internet, contratou uma contadora para cuidar do seu dinheiro que era guardado num cofre em sua casa, contratou três seguranças e transferiu todas as suas aplicações para imóveis e ouro. Exigia que todas as transações fossem em dinheiro vivo.

No dia primeiro de janeiro de 2011, logo após a posse de Dilma Rousseff, uma guerrilheira que se tornou a primeira mulher a presidir o Brasil, a internet e todos os sistemas computadorizados entraram em colapso e o país parou.

 



publicado por quemcontaumconto às 23:49
Estou curtindo bastante os contos, Sr. Ildeu. Parabéns! Já tenho os meus prediletos: Carpe Diem e O Monstro. O requinte de detalhes os torna mais intrigantes e divertidos também. Sigo curiosa pelos próximos...
Abraço,
Isa.
isa a 11 de Abril de 2011 às 02:40

Novos contos estão no forno. Em breve teremos novidades.

Sem deixar para o final a minha alegria ao ler e sentir um conto bem escrito e melhor estruturado, confesso que ia me sentindo empurrado do céu por não ver perdoado o meu pecado. Seu conto me conduzia a um lugar conhecido meu e, de repente me vi lançado numa outra direção , quase a tirar outra conclusão que não aquela a que o conto me arremessava. Felizmente me vi envolvido pela sua precisão nas expressões e pelo seu jeito maneiroso de conduzir o leitor que cheguei bem e consciente ao final, trazendo nas mãos aquela conclusão que tanto esperava.

Há muitos anos li um semelhante com uma dinâmica muito parecida com esta sobre uma nota, não me lembro bem o valor correspondente aos dias de hoje, mas uma nota de dez reais que teria vindo a mais no pagamento de um funcionário público. O, hoje, admirável e honesto funcionário teria feito uma via crucis no sentido de devolver aquele dinheiro a mais, que não era dele. O enredo vai por aí até que, perdendo a paciência, se dirigiu à Pagadoria da Capital e, num puro e simples gesto de arremesso, atirou a nota feita em uma bolinha amassada lá dentro da Pagadoria, no meio das máquinas e funcionários, aquela devolução em espécime a que nenhum órgão público deu atenção para receber.

O seu Monstro foi além desta expectativa. Ele me surpreendeu por não ser imaginário nem apenas um jogo de palavras que, pelo seu conjunto e estruturação em idéias , ganha o seu lugar nas galerias da arte literária Ele é real porque nos deixa antenados com aquilo que vemos mesmo de olhos fechados. Vamos em frente, Gosto de ler você. - Jair
Anónimo a 12 de Abril de 2011 às 19:38

Jair, é um privilégio ter um leitor arguto, que se dá ao trabalho de fazer um comentário registrando suas impressões e ligando a história com outras já lidas..

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