Quinta-feira, 09 de Junho de 2011

 (“Ainda bem que nestes cinemas de shopping ninguém sabe qual filme a gente assistiu. Já imaginou uma de minhas amigas me vendo sair de um filme chamado Uma Relação Pornográfica?”)

− Ficou constrangida com filme, Léa? – perguntou Frei Irineu, quase adivinhando os pensamentos de sua paroquiana.

− O título é mais constrangedor que o conteúdo do filme. A tradução para o português é apelativa. No cartaz estava “An Affair of Love”.

− O filme é francês, Lea, e o título original é “Une Liaison Pornographique” – disse Luiz, que caminhava um pouco à frente com Tatiana, sua jovem esposa.

A ida ao cinema tinha sido ideia do Frei Irineu, que estava organizando a Pastoral Familiar na paróquia de Santa Inês.

− Vamos comer uma pizza e comentar o filme?

− Com um chopinho, Frei?

− Uns, Luiz.

Procuraram uma mesa mais afastada da pizzaria onde pudessem conversar à vontade.

− Gostou do filme, Léa?

− Difícil dizer. Confesso que fiquei emocionada com a ternura dos dois. Queria que eles ficassem juntos. Francamente, não acredito que uma mulher aceitasse, pior, propusesse se encontrar com um homem desconhecido para “realizar uma fantasia”. Só mesmo num filme francês.

− Engano seu, Léa. Você não imagina o que ouvimos nos confessionários.

− Afinal, que fantasia era essa? O filme não mostra nada. Eles entram para o quarto e a gente fica do lado de fora.

− Ah! Você ficou curiosa, queria ver a cena.

− Deus me livre, Luiz – reagiu Léa enrubescida − homem é que gosta dessas coisas.

Léa estava viúva há cinco anos. Aos cinqüenta adquirira uma beleza madura que ainda atraia olhares apreciadores. Seu coração tinha um único dono, a netinha de três anos que morava em sua companhia, juntamente com sua filha desde a separação do marido. O cuidado da neta e a dedicação ao trabalho na Igreja davam sentido à sua vida. 

− Achei significativo o filme não mostrar a fantasia. O filme não é pornográfico. Pornográfica é a relação dos personagens.

− Em que sentido, frei Irineu?

− Ora Luiz, os dois se encontram num quarto de hotel, sem se conhecerem, sem qualquer laço e com a intenção explícita de não criarem nenhum envolvimento, cada um usando o outro como um objeto para realizar uma fantasia. Isso é pornografia.

− Frei Irineu, são duas pessoas livres. Ninguém foi obrigado. Os dois tiveram prazer. Onde está a pornografia?

 − Na falta de envolvimento, Luis, na falta de amor. Na carência de humanidade. Toda relação humana tem uma dose de compromisso.

(“Tive minhas relações pornográficas. Eram bem excitantes e no final batia um vazio.”) Luiz foi arrancado de seu rápido devaneio pelas palavras da esposa.  

− Pois eu achei a idéia atraente exatamente pela falta do peso do compromisso. Principalmente a mulher: me pareceu livre, corajosa e autêntica. Teve um desejo e tratou de realizá-lo. O homem foi mais passivo. Ficou um pouco incomodado com a atitude dela, mas não deixou de aproveitar a oportunidade.

Todos ficaram surpresos com a veemência de Tatiana.

(Idéia atraente? Será que a Tatiana tem desejo de transar com um homem desconhecido? Será que ela teria coragem?) Estes pensamento fizeram Luiz se calar e fechar a cara.

− Nós, mulheres, sempre fomos reprimidas. Você, Lea, foi casada por vinte anos. Você ousou alguma vez tomar a iniciativa, expressar seu desejo?

− Eu fui muito feliz com o Antônio. Ele foi muito bom para mim. Amoroso, carinhoso, amigo, companheiro.

− Sim, eu sei. Sempre admirei a relação de vocês. Mas estou falando de desejo, de prazer, de sonho, de fantasia.

− Voltemos ao filme, meus amigos – falou Frei Irineu para mudar o curso da conversa. No decorrer da história as coisas mudaram. A câmara e nós fomos admitidos no quarto do hotel e presenciamos um ato de amor.

− É, a relação deixou de ser pornográfica, mas por que eles não ficaram juntos. Estavam tão apaixonados. A declaração de amor dela foi tão comovente.

− Para não sofrer, Léa. Você acha que conhece uma pessoa, tem certeza do amor dela e de repente descobre que ela acha “atraente” a idéia de ficar com um desconhecido. Acha pesado o compromisso que ela assumiu com você.

Luiz estava com os olhos cheios d’água. Tatiana olhou pra ele, atônita.

− Môr, que isso? É só um filme. Nunca pensei em fazer isso com você. Eu te amo, você sabe.

Luis levantou-se, deixou uma nota de cem reais em cima da mesa e saiu apressado. Tatiana correu atrás dele.

− É, Frei, o caldo entornou.

− Amadurecer é um processo doloroso, Léa. Amar é uma coisa complicada, mistura o legítimo desejo de exclusividade com o intolerável sentimento de posse. Como conjugar o amor com a fidelidade, com a liberdade.

− Antônio dizia que para amar é preciso ter muita inteligência.

Ficaram alguns momentos em silêncio no meio do burburinho da pizzaria, bastante movimentada naquela noite de sexta-feira.

− Amanhã tem catecismo cedo. Vamos chegando.

− Vamos frei Irineu. Eles são jovens e se amam. No fim dá certo.

− É claro, Léa, te deixo em casa.



publicado por quemcontaumconto às 23:53
Não precisamos explicar. O comentário parece ter traduzido bem a

dimensão do filme. O chopinho deixou o grupo na calibragem certa

da animação de uma mesa despretensiosa e sem pressa de uma

conclusão.. É bom ler texto assim gostoso que flui com delicadeza,

mas expressando bem o que se passa dentro de cada um. O texto, ao

lê-lo, me faz envolver com os sentimentos dos personagens e criar

minha própria reação . Valeu.... Jair
Jair Moreira a 10 de Junho de 2011 às 01:48

Obrigado, Jair. Seus comentários são um estímulo constante.
quemcontaumconto a 12 de Junho de 2011 às 22:19

Ildeu,

Gostei do diálogo. Você conseguiu viabilizar um momento de tensão. Mostrar a dicotomia existente entre a liberdade do pensamento e a realidade. Somos todos paradoxais?

Beijos,
Magali.
Anónimo a 11 de Setembro de 2011 às 13:19

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