Domingo, 23 de Outubro de 2011

 

Ildeu Geraldo de Araújo
15/05/2011

Este coroa me dá nos nervos.             

− Ô cara, dá pra ir mais rápido? Pega a pista da direita.

Se eu chegar depois das onze, ferra tudo e aí o Fininho me ferra.

− Tá amarelo, cara, acelera. Tô mandando, cara. Tá vendo este trabuco? Ele está na minha mão, não tá? Então eu estou no comando, sacou?

O Fininho falou que tinha que ser um Honda Civic, só coroa tem um carro desses. Cinco quilômetros depois do posto Chefão, foi o que o Fininho disse.

− Vai pela Contorno e pega a Nossa Senhora do Carmo.

Ele pensa em tudo, sabe das coisas. É como dizia minha vó: você vai com o milho e ele já tá com o fubá pronto. O último trabalho só deu errado porque o Caolho marcou bobeira. Primeiro ele passou três vezes seguidas em frente à loja de conveniências, depois entrou e ficou um tempão vendo as coelhinhas da Playboy, aí tirou o celular, ligou e falou: Limpo. É bobeira demais. Quando o Fininho e eu paramos em frente à bomba já tinha dançado tudo. O Fininho sacou logo. Saiu cantando pneu quando a rapa entrou no posto. O Caolho escapou dos home, mas o Fininho pegou ele de jeito. Sem perdão.

− Acelera, coroa, esta máquina faz mais que 150. Você está com sorte. Vai viver perigosamente uma vez na vida. Acelera.

Esse cara me dá nos nervos. Fica me olhando de meia jota, como dizia minha vó. Não gosto do jeito que ele me olha. Olha com raiva e desprezo. Olho ruim igual ao do Velho. Vó dizia que o Velho matou minha mãe de pancada. Eu nem me lembro da cara dela. Era muito pequeno. O Velho sumiu.

− Manera, manera, cara. Não está vendo a blitz ali na frente? Se bancar o esperto cê morre. Eu vou junto, mas não tô nem aí. Juízo, cara, e tudo termina bem. Só quero o carro. Vai passando. Só para se eles mandarem.

 

“Viu? Deu tudo certo. Ter olho verde me ajuda pra caramba. Tenho cara de anjo, né? Agora acelera de novo que estamos atrasados.

O Velho tinha olho verde. Olho verde é traição, Vó dizia e olhava pra mim com raiva. Depois me abraçava e chorava um tempão.

− Vai com calma, coroa. Estou com pressa, mas quero chegar vivo. Manera, cara. O que você tá querendo fazer? Quer matar a gente?

Ele me olha com raiva. Seus olhos também são verdes. Aperto o gatilho uma, duas, três, quatro vezes.

 



publicado por quemcontaumconto às 14:17
É com alegria, desanuviado e sem preconceito que leio seu conto. É fácil de ler, vai se desfiando com as palavras, envolvendo, trazendo a gente pra dentro e deixando o leitor à vontade. Parabéns, Ildeu .
Mande outro. Jair
Jair a 6 de Novembro de 2011 às 00:40

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