Domingo, 05 de Fevereiro de 2012

 

Um conto de Ildeu Geraldo de Araújo

− Mais uma cerveja?

− A saideira, amanhã tenho que fazer uma palestra no curso de noivos da minha paróquia.

− Paulo, Deus existe? Você acredita realmente nestas fábulas que os padres despejam nos ouvidos das pessoas todos os domingos?

− Assunto complicado para um fim de noite, depois de meia dúzia de Brahmas.

− De Bohemias, Brahma é uma água choca. Não fuja da raia, Paulo.

− Você não acredita em Deus, Alfredo?

− Já vem você com esta mania de responder a uma pergunta com outra. Vou lhe responder: não, não acredito. Não acredito que exista um céu, e lá no alto um velho de longas barbas anotando o que você fez de errado para lhe ferrar quando você morrer.

− Mas neste Deus eu também não acredito. Acho que Deus tem coisa melhor para fazer.

− Desculpe-me, Paulo, esqueci que você é da linha da liturgia da libertação, mistura de comunismo com catolicismo.

− Teologia da libertação que não tem nada com o comunismo. Acredito que Deus se revela no meio do povo, de uma comunidade, que se une para encontrar a felicidade por meio da solidariedade.

− Felicidade, solidariedade, são quimeras. Você já encontrou isso na prática, alguma vez?

− Muitas vezes. Você não imagina a capacidade das pessoas que vivem na pobreza de dividir o pouco que têm. Nos
aglomerados…

− Você quer dizer nas favelas. Favela agora virou aglomerado. Nas favelas só tem traficante.

− Engano seu, Alfredo, noventa e oito por cento dos moradores dos aglomerados são trabalhadores. É lá que moram os pedreiros, os peões de obra, os mecânicos, os bombeiros, as empregadas domésticas. Estas pessoas que tornam sua vida possível, com o seu trabalho. Só que estas pessoas não são notícia. Nenhuma televisão vai mostrar um trabalhador saindo de casa às quatro horas da manhã, andando três horas de ônibus para chegar ao trabalho, carregando tijolos, cimento e areia por oito horas, viajando mais três horas para levar o pão de cada dia para seus filhos.

− Ninguém vai assistir a um programão destes.

− Mas assiste a polícia matando um jovem de dezoito, vinte anos, encontrado com dez pedras de crack no bolso.

− Mais uma?

− A derradeira? Manda descer.

− Você deve estar muito bêbado mesmo para defender traficante.

− Não defendo traficante. Só acho que o combate ao tráfico não vai resolver nunca o problema. Só vai alimentar a violência. O tráfico e o combate ao tráfico fazem mais mal à sociedade que o próprio consumo da droga.

− Não me diga que você é a favor da liberação da droga.

− Você também é, Alfredo. Você não ficou furioso com a lei seca?

− Mas o que tem a ver uma coisa com a outra?

− Álcool é droga, cigarro é droga.

− É. Mas é diferente...

− Por exemplo, por que seu casamento acabou, Alfredo?

− Isto não é da sua conta...

− A Janice é minha irmã e você, além de cunhado, é meu amigo.

− Mesmo assim não lhe devo explicações.

− Não é isso. Não estou cobrando nada. Me corta o coração ver a Janice chorando pelos cantos e você sem rumo na vida.

− E você sabe o rumo: Deus, religião.

− Por que você se separou da Janice?

− Foi ela que me pôs pra fora de casa.

− Se cansou de suas bebedeiras. Lembra do vexame que você deu na formatura dela?

− Eu estava bêbado, esqueceu? Maldita bebida... Eu continuo amando a Janice. Não sei como continuo vivo... Sem ela minha vida acabou.

− Pode ser diferente.

− Tentei conversar com ela, Paulo, ela não quer ver nem minha sombra pintada a ouro. Não a culpo. Ela se cansou de me perdoar.

− Deixe o vício, Alfredo. Reorganize sua...

− Que vício? Eu não sou alcoólatra. Você bebe tanto quanto eu.

− Bebo não. Tomo umas cervejas de vez em quando. Você bebe todo dia. Quando seu filho nasceu você estava caindo de bêbado, lembra?

− Você sabe ser cruel, hein Paulo? Jogar na minha cara o pior vexame da minha vida.

− Me desculpe, Alfredo. Você admitir que é viciado é o primeiro passo para resolver este problema.

− Ta bom, sou alcoólatra e daí? Vai me mandar pro AAA?

− É uma boa idéia, tem dado certo para muita gente. Mas existem outros tratamentos. O importante é você querer sair dessa.

− Não quero outra coisa, Paulo. Não quero outra coisa.

− Waldemar, traz a conta.

− Quer que anote, Alfredo?

− Não Waldemar, estou fechando a conta.



publicado por quemcontaumconto às 10:17
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