Domingo, 04 de Março de 2012

Ildeu Geraldo de Araújo (13/04/2010)

 

Heloísa Bittencourt procurava esconder a ansiedade quando seu carro abandonou a rodovia e começou a subir em direção à pequena cidade onde vivera até os dezessete anos.

Ao receber o convite para cantar uma ária do Messias de Haendel com o coro da Matriz de Bom Jesus, no Domingo de Páscoa daquele ano, ficou curiosa em ver a reação de seus conterrâneos. Ficou imaginando a manchete do “A Voz de Bom Jesus”: “A Grande Soprano Heloísa Bittencourt retorna à sua Terra Natal”. Achou divertido imaginar a improvável manchete: “O Retorno de Loló”.

Loló estava sepultada há muito, no seu lugar surgira Heloísa Bittencourt, uma mulher do mundo, acostumada aos aplausos das mais sofisticadas plateias da Europa e dos Estados Unidos.

Quando avistou a Matriz de Bom Jesus, Heloísa ficou surpresa com a intensidade da emoção que sentiu. Loló a estava esperando...

 

Loló tinha quinze anos quando padre Carlos chegou a Bom Jesus como vigário auxiliar. Tinha acabado de se ordenar, devia ter uns vinte e cinco anos e estava cheio de planos. Sua primeira iniciativa foi formar um coro com as crianças e jovens da cidade. Loló se destacou desde o início, era muito afinada e sua voz era colorida com timbres pouco usuais em meninas de sua idade. Padre Carlos ficou maravilhado, tinha encontrado uma pepita de ouro na primeira garimpada.

A primeira apresentação do coro surpreendeu o povo de Bom Jesus. Não entendiam como suas crianças podiam criar tanta beleza e harmonia, parecia um milagre. Quando Loló cantou a Ave Maria à capella, nem os homens conseguiram conter as lágrimas.

A vida corria feliz para Loló entre as atividades do colégio, as poucas tarefas que sua mãe lhe dava e as aulas de canto com padre Carlos.

Apaixonar-se por ele foi inevitável.

Nos dois anos que se seguiram o talento de Loló ficou evidente, tinha a voz abençoada por Deus. A pepita que padre Carlos encontrara estava se transformando numa jóia que, mesmo em seu esboço, mostrava uma beleza singular. A natureza também realizava seu trabalho. Por trás da brejeirice da adolescente antevia-se uma linda mulher.

 

Certa tarde, Francisco, o sacristão da Matriz, estava arrumando os paramentos e as alfaias litúrgicas e ouvia, com prazer, o coro cantando “Panis Angelicus”. O ensaio acabou, Francisco ouviu o burburinho das crianças saindo e, após alguns minutos de silêncio, o piano de novo, e apenas uma voz, que não poderia ser outra. Ele escutava embevecido. Porém, em poucos minutos, voltou o silêncio. Francisco ficou intrigado. Curioso, aproximou-se e viu, através da porta entreaberta, Loló e padre Carlos se beijando.

Apesar de gostar do padre Carlos, Francisco julgou ser sua obrigação comunicar a fato ao Bispo. Sua Excelência agradeceu o zelo mas explicou que era preciso agir com cautela e, principalmente, manter segredo para evitar um escândalo. Francisco garantiu que, se dependesse dele, a imagem da Igreja não seria prejudicada.

Padre Carlos foi chamado à sede do bispado, onde foi duramente advertido pelo Bispo. Ele se explicou como pode e, por fim, acertaram que ele ficaria fora uns tempos. Voltou a Bom Jesus para pegar umas roupas e partiu imediatamente.

O Bispo pediu a presença dos pais de Loló na sede episcopal. Para evitar que a jovenzinha também viesse a ter problemas, Sua Excelência sugeriu a ida dela para a capital. Prometeu ajudá-la a completar seus estudos, e desenvolver seu talento musical. Ele ficou satisfeito por não ter que transferir padre Carlos de Bom Jesus, pois tinha planos para ele.

Loló recebeu a decisão de seus pais com um sentimento ambíguo: mágoa por ser castigada e ter que abandonar repentinamente sua família, a casa aconchegante, as amigas e, por outro lado, uma grande alegria, pois iria realizar seu sonho de se tornar uma grande cantora. Levaria na lembrança aquele beijo de um amor para sempre gravado em seu coração. Ainda se espantava com sua ousadia em roubar um beijo de Carlos.

Estava cantando ao lado dele, junto ao piano. Após um difícil agudo, ele se voltou para ela com um olhar de aprovação, ela não resistiu, abaixou-se e lhe deu o beijo que vinha povoando seus sonhos. Ele não a repeliu prontamente, paralisado pela surpresa. Retomando o controle, a repreendeu severamente. Irritado, decidiu que não poderiam mais ensaiar sozinhos.

 

Ao entrar na praça da Matriz, Heloísa teve uma sensação estranha. Era Sábado de Aleluia, mas parecia que a cidade continuava na Sexta-Feira da Paixão. Em vez da malhação do Judas, as pessoas formavam pequenos grupos e conversavam com ar compungido, em clima de velório. Suspendeu o vidro do carro para não ser reconhecida e foi direto para casa.

Sua mãe a esperava com uma surpreendente notícia: Padre Carlos tinha sido preso logo após a procissão do enterro, sob a acusação de pedofilia.

Heloísa ficou estarrecida com a notícia. O Padre Carlos que ela conhecera era um homem bom e afetuoso. Não acreditava que ele tivesse se transformado tanto a ponto de molestar uma criança. Seu primeiro impulso foi visitá-lo levando apoio e solidariedade. Queria ouvir, da boca de Carlos, sua versão dos fatos. A mãe de Heloísa não concordou. Não queria a filha envolvida com aquele escândalo. Foi um verdadeiro milagre o caso do beijo não ter se espalhado pela cidade. Era melhor não abusar da sorte.

A apresentação do Messias foi cancelada. O Bispo mandou um padre da Diocese para as cerimônias da Vigília Pascal. Bom Jesus fervilhava de fofocas. Heloísa foi se inteirando dos antecedentes do escândalo. A denúncia do crime fora feita pelo Francisco, sacristão da Matriz durante vinte e três anos. No ano passado ele fora demitido pelo Padre Carlos, que alegou a necessidade de dar oportunidade para outros fieis participarem da vida da Igreja.

A suposta vítima era justamente a filha de Francisco, Regina, que cantava no coro. Suas amigas disseram que, depois de ficar um tempão com o vigário na sala onde ele atendia confissão, ela saiu chorando e foi correndo pra casa sem falar com ninguém. Isto aconteceu no Domingo de Ramos, à tarde. As celebrações da Semana Santa prosseguiram normalmente. Na manhã de Sábado de Aleluia veio a notícia.

Na segunda-feira Heloísa foi surpreendida com uma intimação para ir à delegacia depor. Sua mãe ficou preocupadíssima. Reviveu sua angústia. Ela teria que se mudar. Afinal, como continuar morandoem Bom Jesus, quando todos soubessem a verdadeira razão da partida de sua filha vinte anos atrás?

Heloísa voltou indignada da delegacia. Fora interrogada durante quatro horas porque Francisco, para retirar a suspeita de falsidade provocada por sua recente demissão, acusou padre Carlos de ter abusado de Heloísa, quando esta era apenas uma criança, acrescentando ao beijo detalhes que sua imaginação foi criando. Heloísa não negou o beijo, confessou emocionada que estivera apaixonada por Carlos, mas o defendeu com veemência, ele se portara com retidão durante os poucos anos em que conviveram. O beijo fora iniciativa dela e nada mais acontecera. Padre Carlos não a molestara então e jamais seria capaz de molestar uma criança.

Heloísa ficou uma semanaem Bom Jesustentando, de todas as maneiras, ver Carlos, mas o delegado não consentiu. Pressionada pelos seus compromissos internacionais, teve que partir.

 

Em Roma, recebeu uma longa carta da mãe relatando o desfecho do caso. Matilde, esposa de Francisco, denunciou o marido como autor do crime. Desde os sete anos ele abusava da filha. Matilde sabia, mas se calara, pois não teria como viver sem o marido. Quando a filha ficou grávida, Francisco denunciou o padre para se livrar do problema. Mandou que a filha se confessasse para obrigar o padre a se calar e com seu silêncio aumentar as suspeitas, dando credibilidade à denúncia. Atormentada pela culpa, Matilde contou a verdade.

O Teatro dell’Opera vibrou com a voz cristalina de uma Heloísa Bittencourt mais linda do que nunca, solta, radiante. Uma maravilhosa e doce “Madame Butterfly”.

 



publicado por quemcontaumconto às 22:27
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