Sábado, 10 de Março de 2012

Ildeu Geraldo de Araújo – 11/10/2011

 

− Ah, Loló, Margarida foi como uma irmã para mim...

Heloísa estremeceu. Não era chamada pelo apelido há uns trinta anos. Ficou de pé, ao lado do caixão de sua mãe, recebendo os pêsames dos parentes e amigos da família, constrangida por não se lembrar de muitos deles. Sua carreira a afastara daquele universo por tempo demais.

A sala de visitas tinha sido transformada em velório; ficou cheia a tarde toda e boa parte da noite. Lá pelas onze horas ficaram apenas as pessoas mais próximas. Heloisa voltou para junto de sua mãe e contemplou, por um longo tempo, o rosto sem vida, mas envolto numa grande serenidade. Foi chegando, vinda de longe, aquela voz que sempre a guiou e consolou:

... chora não, Loló, não foi nada, deixa a mamãe passar remédio, vou acabar com esses marimbondos, eles vão ver...

... pensa nisso não, filhinha, vai demorar muito, todo mundo morre, mas você ainda é novinha...

... não, Loló, não dá certo. Mãe é mãe e professora é professora. Você vai pra turma da D. Violeta...

... isso é natural, filhinha, você virou moça, o incômodo virá todo mês, mas dura só três dias, depois passa...

... ah, minha filha, que voz linda; canta a Ave Maria pra mim; não sabia que tinha uma cantora em casa...

... que Deus a proteja; cuidado, Loló, Rio de janeiro não é Bom Jesus, cuidado minha filha ...

Heloisa se sentiu muito cansada, sentou-se num dos bancos, recostou a cabeça na parede, fechou os olhos. Suas lembranças continuaram, agora, não como o fluir alegre de um regato, mas como um turbilhão: Rio, São Paulo, Paris, Nova York, Milão... Ela cantando ... vocalizes... agudos impossíveis... árias de perder o fôlego... sono... sonho...

Aplausos, muitos aplausos, ela estava entrando num imenso salão de baile rodeada por damas e cavalheiros ricamente vestidos. Os rostos cobertos por máscaras coloridas, enfeitadas com lantejoulas. Ela usava um longo vestido de seda, ornado com pedras coloridas.  Era conduzida por um homem com uma roupa bizarra, que cantava em francês: “…Voici ma Juliette!” Sabia que tinha de cantar alguma coisa, mas não se lembrava. Felizmente os cavalheiros fizeram uma roda em volta dela, louvando, em coro, sua beleza, dando-lhe tempo de se recompor. Ouviu sua voz aguda e límpida como um cristal, entoar: “Um mundo de encantamento brota diante dos meus olhos. Tudo me fascina e me inebria! E minha alma encantada é impelida para a vida, Como um pássaro voaria para o céu!” Aplausos, aplausos... Estava agora vestida como uma princesa da China, propunha a seus pretendentes três enigmas que não conseguiam resolver e a deixavam sozinha no imenso salão imperial... Sob o ritmo vibrante das castanholas, Carmem evoluía alegremente pela praça de Sevilha: “O amor é um pássaro rebelde”. Aplausos...  Agora era a Bela Adormecida sendo acordada por um beijo...

− Heloisa, Heloisa.

Heloisa demorou alguns segundos para voltar do mundo dos sonhos.

− Padre Carlos está aqui.

Padre Carlos estava junto ao caixão de Dona Margarida. Heloisa permaneceu sentada no banco, observando, pelas costas, aquele homem que fora tão importante em sua vida. Devia estar com quase setenta anos, mas continuava esbelto e aprumado, o que aumentava sua altura. Os cabelos fartos e um pouco longos estavam totalmente brancos. Se estivesse de fraque seria a perfeita figura de um maestro. Heloisa foi para junto dele. Ele continuou olhando para o rosto de Dona Margarida.

− Ela está tão serena.

− Mamãe sempre foi assim. Serena e transmitindo serenidade.

− Uma bela maneira de entrar na eternidade. Ela agora está diante da Verdade. Acabaram-se todas as dúvidas.

−O senhor tem dúvidas, Padre Carlos?

Ele finalmente se voltou para ela e sorriu.

− Quem não as tem, Heloisa? Fé não é certeza. É um risco, uma esperança. Se não parecesse herético eu diria que é uma aposta.

− Sempre pensei em você como uma pessoa que tem todas as respostas, a verdade.

Ele olhou para ela com muito carinho e sorriu.

− O tempo é muito amoroso com você. Está cada vez mais bonita.

− São seus olhos. Seus olhos e a perícia dos cirurgiões. Na vida que escolhi, ou que escolheram para mim, é proibido envelhecer.

− Vejo certa recriminação na sua fala. Fui um dos que “escolheram” sua vida?

− Sem dúvida, mas não estou reclamando, de forma nenhuma. Minha vida tem sido muito boa.

Agora eles estavam praticamente sozinhos na sala velório. As outras pessoas estavam na varanda contando causos ou na cozinha bebendo café ou algo mais reconfortante.  Foram para o canto da sala e se sentaram num sofá.

− E sua vida, Padre Carlos, tem sido boa?

− Como Deus é servido, Heloisa. Há sempre um risco enorme de o padre cair na rotina e se transformar num “burocrata do sagrado”, como diz um colega.

Conversaram longamente sobre a vida e as experiências que tiveram. Padre Carlos estava encantado com a mulher na qual Heloisa se transformara: culta, viajada, sensível, dona de uma aguda percepção da vida e do ser humano. Sem se importar com a prudência lhe confessa:

− Aquele beijo, Heloisa, foi uma experiência indelével em minha vida.

Heloisa levou um choque. Jamais imaginara ouvir isso de Carlos. Ela era jovem e estava apaixonada. O beijo foi um impulso irresistível e as consequências, para ela, foram drásticas. Teve de deixar a segurança e o conforto de seu lar. Abandonar o descompromisso e a irresponsabilidade de uma adolescência apenas começada e se lançar no mundo, na dureza da vida adulta. Tinha menos que 17 anos...

− Pois para mim foi apenas o impulso de uma adolescente boba – mentiu com raiva − tive outros bem mais ardentes e prazerosos.

− É, com certeza você teve.

Ficaram calados. O dia começava a clarear. Ele se levantou, estendeu-lhe a mão.

− Nos vemos antes do sepultamento. Virei celebrar as exéquias de sua mãe.

Ela se levantou, olhou através da cortina de suas lágrimas, para o fundo dos olhos dele, ignorou sua mão estendida e lhe deu um abraço que parecia não ter fim.



publicado por quemcontaumconto às 23:54
Lindo conto!
Anónimo a 12 de Março de 2012 às 01:26

Uau! Que barato, é uma continuação! Muito bom... acho que demonstrou o amadurecimento das personagens muito bem, e mais ainda, o carinho que ainda tem um pelo outro. Será que vira uma trilogia?
Lucas Veloso a 13 de Março de 2012 às 02:22

Obrigado pelos comentários. Pena que o primeiro não tenha assinatura.
Lucas, se vai ter trilogia só Deus sabe.
Um araço
quemcontaumconto a 20 de Março de 2012 às 09:48

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