Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

 

Ildeu Geraldo de Araújo − 14/05/2011

A angústia me acordou de madrugada. A escuridão do quarto não me deixava enxergar nada. Será que fiquei cega? O mostrador do relógio do Paulo, em cima do criado mudo, mostrou-me que minha cegueira era da alma. Chorei baixinho para não acordá-lo, até que o sono venceu a dor que me apertava o peito.

− Acorda dorminhoca, o trem sai às oito e já são seis e meia.

Uma das coisas que aprendi, nestes seis meses de casado, é que Raquel não é de acordar cedo. Acho que nunca encontrarei a mesa do café posta, o pão fresquinho já com a manteiga e a laranja descascada.

Quando terminei de fazer o café voltei ao quarto, ela tinha dormido de novo. Olhei-a com ternura e puxei o lençol, desvelando, devagarinho, a formosura de Raquel, atrás do baby-doll de cetim. A barriginha grávida aumentava sua beleza jovem. Ela agarrou o lençol e se cobriu de novo.

− Me deixa dormir só mais um pouquinho.

Chegamos à estação junto com o trem. Embarcamos depressa e o trem partiu logo em seguida.

− Olha Raquel, estão fazendo a corrida do aço. Aquela fumaça vermelha é óxido de ferro que se forma quando o oxigênio é soprado dentro do gusa líquido para eliminar o excesso de carbono.

Depois da aciaria, o alto forno desfilou pela nossa janela, seguido pela sinterização. Antes da coqueria, o trem virou à esquerda tomando a direção de Vitória. Precisava ir a Colatina comprar madeira para a embalagem das bobinas e decidi levar Raquel. Depois de resolver os problemas em Colatina, iríamos passar o fim de semana em Vitória.

Espero que minha rival tenha ficado para trás e que o Paulo seja só meu neste fim de semana. Fico comovida com o entusiasmo dele pela usina, mas tenho me sentido tão abandonada, tão sozinha.

− Aqui, Raquel, vai ser o aeroporto. A pista vai comportar qualquer tipo de avião. À direita vamos construir uma fábrica de cimento para aproveitar a escória do alto forno.

− Paulo, quanto tempo ficaremos em Colatina? Seria tão bom se fôssemos direto para Vitória. Estou doida pra ver o mar.

− Nem pensar. O estoque de madeira está muito baixo. Se deixo a usina sem embalagem, paro a expedição e o faturamento.

Ele fala como se a usina dependesse só dele. Eu dependo dele, minha felicidade, meu futuro, minha vida. Concentrei-me na paisagem. O rio Doce corria pachorrentamente espalhando suas águas pela planície do vale. Uma prainha de areia branca me transportou para Itacuruçá.

Lua de mel numa ilha. Não era uma ilha deserta, mas o hotel estava vazio. Éramos apenas dois casais de hóspedes, com o pessoal do hotel à nossa disposição. Ficamos numa cabana no meio das árvores. Acordávamos de manhã ouvindo o marulhar das ondas e o canto dos passarinhos. Foi uma semana de total comunhão. Paulo procurando adivinhar meus desejos. No dia seguinte ao nosso regresso, a usina tirou meu amor dos meus braços.

− Olha o rio Doce, que beleza. Esta ponte de madeira tem seus dias contados. Vamos construir uma ponte de concreto e asfaltar a estrada até à Rio-Bahia.

− Ela é bem simpática, Paulo. É uma pena destruí-la.

Paulo sorriu para mim. Adoro seu sorriso. Os olhos brilhando, a boca entreaberta mostrando o canino pontudinho no lugar de um dos incisivos. O rosto iluminado. Sua alma fica exposta, acessível.

− Você é muito romântica, querida. Como manter uma velha ponte de madeira, atravessando um rio com mais de cem metros de largura? Como escoar a produção da usina numa via tão precária?

− Cachoeira Escura, Cachoeira Escura. Próxima parada.

− Pena que não se pode construir uma usina hidroelétrica aproveitando as corredeiras de Cachoeira Escura. Uma barragem nesta baixada iria inundar meio mundo.

Disse pra mim mesma: Fechou a janela da alma. O engenheiro assumiu seu posto. Será que ele não vê a beleza dessas águas borbulhando entre as pedras. Que pena aprisionar esta correnteza numa tubulação e estrangulá-la entre as pás de uma turbina.

Quando Paulo abriu a pasta, retirou dela os processos de compra e começou a estudá-los, virei o rosto para a paisagem, escondendo as lágrimas. Estava sozinha naquele vagão cheio de gente, como estive sozinha nos últimos seis meses numa cidade fabricada, uniforme, sem praça nem vitrines, sem um cinema decente, sem uma confeitaria onde tomar chá com amigas antigas que ali não estavam.

− Vamos almoçar, meu bem? Fiquei com pena de acordá-la, mas já é meio dia.

A Raquel anda esquisita, calada, distante. Fica tão difícil conversar com ela. Será por causa da gravidez? Preciso arranjar um jeito de animá-la.

− Vamos tomar uma cervejinha, querida? Esqueci, você não pode. Uma Coca? Quer o almoço com frango ou com carne de boi?

− Com frango, o bife deve estar uma sola.

− Você viu, Raquel, o comício do dia 13, no Rio, em frente à Central do Brasil? Agora vai, o Jango resolveu fazer as reformas de base.

− Isso não vai dar em nada.

− Que pessimismo, querida. A reforma agrária vai sair do papel. Vão desapropriar as terras às margens das estradas federais. Acho que deviam incluir os vales dos grandes rios como o rio Doce.

Ela está esquisita mesmo. Sempre foi tão entusiasmada com as reformas. Fiquei falando sozinho o almoço inteiro.

− O que foi, Raquel? O que está te amolando?

− Nada não. Este calor me deixa desanimada.

Eu perguntei. Se ela diz que não é nada, o que eu posso fazer? Deve ser a gravidez. Quando nosso filho nascer ela esquece todo esse incômodo. Tenho tanta coisa para ensinar a este menino. Ele vai viver num mundo melhor, com menos desigualdade. Um mundo com mais justiça, mais...

Paulo já dormiu. Quando achei que iríamos conversar, ele dorme. Será que não percebe minha agonia? Enfarou de mim. Deve estar me achando uma baleia com este barrigão, e chata ainda por cima.

Fico pensando no contraste do trem veloz acompanhando as águas vagarosas do rio. À noite, o trem chegará ao litoral, as águas estão aqui e já chegaram ao mar, no seu contínuo fluir. Avisto um bando de garças pousadas num banco de areia no meio do remanso. Lá longe, na outra margem, o gado pasta. Esta beleza melancólica combina com o ritmo de minha alma. Outro trem passa velozmente no sentido contrário, atrapalhando minha contemplação. Meus olhos acompanham o último vagão se afastando na longa reta. O início de meu casamento é parecido com estes trilhos: eu e Paulo seguimos juntos mas separados. "As paralelas só se encontram no infinito".

Paulo acorda, sinto seu rosto encostado ao meu. Passa o braço sobre meu ombro e com a outra mão acaricia minha barriga. Beija, carinhosamente meu rosto e sussurra ao meu ouvido:

− Como você consegue ficar mais linda a cada dia?

− Linda? Com esta barriga e essa nuvem escura em cima de minha cabeça?

− A barriga lhe deixa irresistível e a nuvem escura, vou dissolvê-la com o poder dos meus beijos.

− Sossega, Paulo. Estão nos olhando.

− Estão é com inveja de mim.

Não resisti, correspondi aos seus beijos. Quando quer, ele sabe ser encantador. Espera e esperança é o que vejo à minha frente. Tem um jeito de as paralelas se encontrarem: se a distância entre elas for zero − meu projeto.

 

 



publicado por quemcontaumconto às 23:09
Muito bom, Ildeu. As suas reflexoes fluem suavemente. A vida a dois realmente nao eh facil, mas as paralelas algumas vezes se encontram, desafiando a geometria.
Marisa a 10 de Agosto de 2012 às 11:23

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