Sexta-feira, 22 de Junho de 2012

 

 

 

 

Ildeu Geraldo de Araujo - 28/04/2010

 

 

As ruas estavam alagadas quando saímos do cinema. Com muito custo chegamos a Copacabana. Na casa da avó de Raquel, onde estávamos hospedados, o pessoal estava assistindo à TV Tupi quando a vinheta anunciou uma edição extraordinária do Repórter Esso: “Um terrível temporal alaga as ruas do Rio de Janeiro. Nos morros cariocas, os deslizamentos soterraram inúmeros barracos, provocando destruição e várias mortes. Os bombeiros já iniciaram o trabalho de resgate das vítimas...”

 

A avó de Raquel, D. Adélia, morava num apartamento de dois quartos na Av. Nossa Senhora de Copacabana, entre os Postos 5 e 6; com ela viviam duas filhas e duas netas. Nas férias hospedavam-se lá D. Dinorah, Nair e Raquel, suas duas filhas. Naquele Réveillon de 65 para 66, eu, minha filha Letícia de dois anos, meu filho Vinicius de seis meses e Mirtes, minha irmã de catorze anos, completávamos a turma. Era o milagre da acolhida e da hospitalidade. O pequeno apartamento se transformava num acampamento.

 

O lar de D. Adélia era um universo feminino. A matriarca ficara viúva há tanto tempo que o único vestígio de seu marido era um retrato na parede. Ele tinha desaparecido das conversas e, acredito, da memória das pessoas que viviam naquele apartamento. Tia Amélia era separada do marido e o filho deles morava em São Paulo. Minha sogra ficara viúva há cinco anos e Tia Hortência enviuvara no ano passado.

 

Eu me sentia estranho naquele ambiente. Era muito bem recebido, tratado como um rei com todas aquelas mulheres me servindo e tentando me agradar, mas minha opinião não era levada muito a sério. Faziam meu prato, indicavam a hora de ir para a praia, a que hora voltar, qual programa fazer, que bonde ou que ônibus tomar para ir à cidade. Como não adiantava resistir, eu soltava o corpo e deixava que a onda me levasse. Sabia que ela, ao final, me traria de volta para a praia.

 

As conversas giravam em torno da família, dos amigos, das parceiras de jogo, dos nascimentos, das mortes, dos casamentos, do preço da carne, das tarefas da casa. 

 

A passagem de ano, no apartamento da D. Adélia, era um acontecimento memorável. Umas vinte pessoas participavam da ceia, preparada pela tia Amélia, cozinheira de mão cheia. Falavam todos ao mesmo tempo e não era raro surgirem discussões acaloradas sobre os assuntos mais disparatados. Eu ficava mineiramente calado, estranhando aquela algazarra tão diferente das reuniões da minha família. Apesar do estranhamento, eu me divertia muito.

 

No primeiro dia do ano a festa continuava com um entra e sai de parentes, vizinhos e amigos que iam levar seus votos de paz e prosperidade para o Ano Novo, comer as deliciosas rabanadas da D. Adélia e arrematar as sobras da ceia farta. Nos dias seguintes era aproveitar as maravilhas de Copacabana. Raquel e eu gostávamos de andar de mãos dadas pelo calçadão, olhando a espuma branca das ondas que nunca paravam, cantarolando: “Existem praias tão lindas, cheias de luz. Nenhuma tem os encantos que tu possuis...” A música sempre foi um laço de união entre nós. Aquela, particularmente, nos enlevava. Copacabana despertava em nós um desejo terno e envolvente, uma alegria por estarmos juntos, por termos encontrado um ao outro. Aquela atmosfera de beleza e sensualidade nos dava um grande contentamento e uma determinação de fazer crescer nosso amor. Um amor para a vida toda.

 

Em 66 as coisas não seguiram este script de comédia romântica. O dilúvio que começou no dia 2 estendeu-se pelos dias seguintes. O que provoca tanto sofrimento, quando ocorre uma catástrofe, não é tanto a manifestação violenta da natureza, mas a pobreza que ela revela. A chuva lavou os morros cariocas, arrastando a fina camada de terra que cobria a base rochosa e os barracos mal dependurados nela. Com os barracos foram arrastadas inúmeras vidas. Falava-se em cem, duzentas, duzentas e cinqüenta pessoas mortas. De repente ficou escandalosamente exposta a miséria de uma população abandonada à própria sorte.

 

As enchentes castigavam não apenas o Estado da Guanabara, todo o Estado do Rio de Janeiro estava debaixo d’água. A BR-3, estrada para Minas, foi inundada pelo Rio Paraíba. As férias chegaram ao fim e ficamos presos numa cidade caótica, com perigo de desabastecimento, perigo de saques e ameaçada pela possibilidade de um surto de tifo. Raquel e eu ficamos apavorados. Vinícius e Letícia eram muito pequenos para ficarem expostos a tanto risco.

 

− Não falei com vocês que era loucura trazer as crianças? − disse D. Dinorah.

 

− Não fale assim Dinorah, não adianta ficar recriminando os meninos, eles já estão muito preocupados − interveio Tia Amélia.

 

− O que adianta preocupar agora... deveriam ter pensado antes, ora! Agora ficamos todos neste apuro; esta noite eu nem dormi direito.

 

− Você se preocupa com tudo. Parece maluca!

 

− Pois eu fiquei muito feliz por conhecer este garotinho lindo − disse Tia Hortência, sacudindo o pé gorducho de Vinícius − venha cá Paulo, vamos tomar uma cervejinha para relaxar. Logo, logo, tudo se resolve.

 

− Tia Hortência era uma pessoa alegre, seu espírito era de não se preocupar muito, encontrando prazer nas coisas simples da vida, como uma cerveja gelada acompanhada de um pastel de camarão.

 

Enquanto bebericava com Tia Hortência, ouvia um novo tipo de trovoada vinda da cozinha. A discussão entre as duas irmãs durou um tempão. Procurei Raquel para tomarmos banho juntos, a única oportunidade de intimidade naquele ambiente superpovoado.

 

− Já tomei banho. Paulo, numa situação destas você ainda fica pensando nisso?

 

Coloquei uma cadeira na minúscula varanda que dava para a sala e fiquei pensando na vida. Aos poucos as vozes interiores foram superando as conversas de dentro de casa. Fiquei pensando nos meus filhos, nos riscos que estavam correndo porque eu os havia trazido para o Rio. Pensei no meu pai. Ele tinha morrido há seis meses, com apenas cinqüenta e três anos, deixando oito filhos, cinco dos quais abaixo de dezoito. Eu, como mais velho, me sentia responsável por ajudar a cuidar dos mais novos. De repente tomei consciência do peso da paternidade: ter várias pessoas dependendo de mim para sustentá-las, protegê-las, orientá-las na vida. Nas minhas escolhas e decisões teriam que pesar a segurança, o bem-estar e o futuro deles.

 

 

 

A campainha tocou. Fui atender com o Vinícius no colo, quando abri a porta lá estava meu pai, a barba por fazer, todo sujo de terra: o terno, os cabelos, as sobrancelhas.

 

− Oi... te assustei?

 

− Não, é que o senhor está todo sujo.

 

− Está tudo bem? – disse ele tentando entrar na sala. Eu fiquei na frente impedindo-o de passar. Mamãe e meus irmãos ficariam apavorados vendo-o naquele estado. Ele me olhou com tristeza.

 

− Já estou indo, vim só para saber como vocês estão passando.

 

− Este é o Vinícius, meu filho. – Ele esboçou um sorriso e foi embora. Fiquei parado, olhando para a porta fechada...

 

 

 

−Você está dormindo, Paulo? Vem jantar. Atende esta porta, Amélia!

 

Durante o jantar fiquei mais calado que de costume. O sonho com Papai me perturbava. Via seu rosto me olhando com ternura, seus olhos muito azuis turvados pela tristeza. Não entendia porque impedira a entrada dele em sua própria casa. Sentia que era relevante eu estar carregando o Vinícius, mas não atinava para o significado disso.

 

− Preocupa não, Paulo. Pelo menos a chuva diminuiu. Amanhã ela para, você vai ver. – D. Dinorah tentava me acalmar. Para compensar a recriminação que fizera, redobrou os cuidados com Raquel e comigo.

 

Ficamos mais dois dias esperando que o Paraíba baixasse. De manhã, estava ainda na cama e ouvi pelo rádio a tão esperada notícia da liberação da BR-3. Arrumamos as malas rapidinho, aceleramos as despedidas e embarcamos no DKW 1964: Eu, Raquel, as duas crianças, minha irmã e Nair. A irmã de Raquel precisava retornar a Belo Horizonte.

 

Era sábado, tinha parado de chover, o dia estava claro e a atmosfera leve, o ar limpo. Na subida da Serra de Petrópolis Letícia vomitou, o primeiro contratempo. Paramos para limpar o banco e trocar a roupa da menina. Aproveitamos para comprar um cacho de bananinha ouro e seguimos viagem. Raquel e eu gostávamos de cantar nas viagens. Acompanhados por Nair e Mirtes percorremos o repertório de Chico Buarque: A Rita, Juca, Madalena foi pro Mar, Meu Refrão, Olé, Olá, Pedro Pedreiro...

 

Almoçamos num restaurante de beira de estrada, perto de Três Rios. Estávamos nos aproximando do Rio Paraíba.

 

− Paulo, por que estes caminhões estão parados?

 

− Talvez um acidente, Raquel.

 

Nair e Mirtes pararam de brincar com Letícia no banco de trás.

 

− Mau sinal – disse Nair − não vem nenhum veículo em sentido contrário. 

 

Fomos avançando devagar. A fila tinha uns três quilômetros. Havia um aglomerado de pessoas no meio da estrada.

 

− O Paraíba saiu do leito, não está vendo? Está baixando. Ontem à tarde as águas vinham até aqui. Nesta toada, com sorte, amanhã a gente consegue passar.

 

Desci até a beira da água. Tinha um homem atravessando a estrada... de canoa. Nair e Mirtes foram ver o que se passava.

 

− Você não disse que as estradas estavam desimpedidas? − disse Nair com ironia.

 

− Foi o que eu ouvi no rádio − me defendi.

 

− Agora é pensar nas alternativas que temos. − Mirtes já na adolescência mostrava ser uma pessoa positiva, decidida.

 

Voltamos para dar a notícia à Raquel. Retornei até uma árvore que sombreava o acostamento, paramos e discutimos o que fazer. Voltar para o Rio era uma hipótese que eu nem cogitava, ficar ali esperando as águas baixarem era impossível, procurar um hotel, numa cidade próxima, poderia ser uma solução.

 

− E se fôssemos por São Paulo? − Eu propus. Nair argumentou que seria uma viagem muito longa e cansativa para as crianças.

 

− Passamos por um trevo faz pouco. Tinha uma placa indicando São Paulo -- Raquel abriu o mapa da "Quatro Rodas" e localizou a estrada. Ela era boa com mapas.

 

− Aqui está: Entramos em Três Rios, passamos em Paraíba do Sul, Vassouras, saímos em Volta Redonda, Resende, depois Cachoeira Paulista. Em Lorena viramos à direita, passamos por Piquete, Itajubá, Santa Rita do Sapucaí. Perto de Pouso Alegre pegamos a Fernão Dias e estamos em casa.

 

− Estamos em casa nada, − objetou Nair − de Pouso Alegre a Belo Horizonte são uns 400 quilômetros. Daqui a Pouso Alegre, outros 400.

 

− Pelo menos estaremos em Minas.

 

− “Quer ir para Minas, Minas não há mais. José, e agora?” – Nair gostava de me provocar; um dos motivos era meu apego a Minas e suas coisas. Ela e Raquel tinham nascido no Rio, em Vila Izabel.

 

− Vamos para Minas, mesmo que tenhamos que passar por São Paulo. – Todos acabaram concordando, vendo minha convicção.

 

− “Oh! Minas Gerais, oh! Minas Gerais, quem te conhece não esquece jamais, Oh Minas Gerais” − eu cantei e Nair replicou:

 

− “Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, cidade maravilhosa, coração do meu Brasil! – Para pacificar, cantei:

 

− “Coqueiro de Itapoã, coqueiro”... – desfilamos as canções praieiras de Caymmi.

 

Chegamos a Cachoeira Paulista com o sol se pondo. As mamadeiras do Vinícius, planejadas para uma viagem do Rio a Belo Horizonte, acabaram. Raquel bateu numa casa pedindo para usar a cozinha. Muito simpática, a dona da casa nos convidou a entrar e ainda fez um cafezinho.

 

Quando pegamos a estrada para Itajubá já era noite, à medida que subíamos a Mantiqueira surgiu um nevoeiro que ia se adensando. Dirigir à noite com neblina é terrível. Fomos a dez, vinte quilômetros por hora. Nair passou para o banco da frente e ia com a cara para fora da janela, vigiando. Raquel e Mirtes, apreensivas, iam caladas. As crianças dormiam serenamente. Foram algumas horas de tensão. Quando descemos para Itajubá, a cerração acabou. Pudemos viajar com maior velocidade, numa estrada vazia. A noite estava escura, sem lua e sem estrelas.

 

No banco de trás todos dormiram. Ao meu lado Nair lutava contra o sono, puxava conversa para nos manter acordados. O assunto foi escasseando e ela acabou dormindo também. Meu pai voltou ao meu pensamento. Lembrei-me de uma viagem que fizemos quando eu tinha uns dez anos. Visitamos uma tia em Betim. Na volta, quando chegamos na estação, vinha um trem na direção de Belo Horizonte. Não dava tempo para comprar passagem, embarcamos assim mesmo. Quando o Chefe do Trem chegou, papai tentou pagar a passagem, mas foi rispidamente advertido que as passagens deveriam ter sido compradas na estação. O Chefe chamou o Fiscal. Não teve jeito, tivemos que descer em Bernardo Monteiro. Papai teve que pagar uma multa e seu dinheiro não deu para comprar a passagem até Belo Horizonte.

 

Quando o trem partiu, ficamos sozinhos na estação vazia. Tinha escurecido. Naquela época não havia ônibus de Bernardo Monteiro para Belo Horizonte. A opção era ir a pé até Contagem. Papai propôs seguirmos a estrada de ferro por ser mais perto. Mamãe se opôs com veemência. Como atravessaríamos os pontilhões? Fomos pela rodovia. Papai ia carregando minha irmã de quatro anos, eu e minha irmã de seis anos íamos caminhando de mãos dadas com mamãe. A estrada era de terra e estava deserta. Andamos muito tempo. Passou um carro em direção a Bernardo Monteiro e parou. Papai perguntou se Contagem estava longe. Estava a cinco quilômetros. O carro se foi e continuamos andando. Minutos depois um carro, vindo de Bernardo Monteiro parou. O motorista abriu a porta e nos mandou entrar.

 

− Resolvi levar vocês até Contagem.

 

Quando chegamos em casa mamãe recriminou meu pai pela sua imprudência. Poderíamos ter pegado o trem que passaria mais tarde. Por muito tempo tive raiva de meu pai por nos ter colocado naquela situação. Agora fico envergonhado com este sentimento. Ele deve ter sofrido mais que todos nós. Fico imaginando sua aflição, seu sentimento de culpa e de humilhação.   

 

 

 

 Chegamos à Fernão Dias de madrugada. Eu estava exausto, mas queria continuar. Raquel brigou comigo até que eu parei o carro num posto à direita da estrada, fui para o banco do carona e dormi quase instantaneamente.

 

Quando eu acordei estavam todos dormindo. Raquel estava no banco do motorista, acordei-a, trocamos de lugar, liguei o carro e virei à direita na saída do posto. Rodei alguns quilômetros e me pareceu que já tinha passado por ali. Rodei mais um pouco e não tive dúvidas: estava na direção de São Paulo. Acordei Raquel, intrigado.

 

− Quando parei, o posto estava à direita, quando saí virei à direita, como é possível que eu esteja voltando na direção de São Paulo?

 

− Meu bem, enquanto você dormia rodei um pouco, mas fiquei com sono e resolvi parar e só achei um posto à esquerda.

 

Rimos, nosso humor continuava firme.

 

Raquel voltou a dormir. O dia estava clareando. Meu pai sempre chamava minha atenção para a beleza do amanhecer quando a barra do dia vem, anunciando o sol. “A luz ilumina não só a natureza, clareia também a alma da gente”. Fui apreciando a paisagem. Passei por um pequeno povoado ainda adormecido e fiquei pensando nas pessoas que estavam naquelas casas. Estariam sonhando? Talvez uma mãe, acordada pelo choro do filho com febre, estivesse aflita, esperando para procurar um médico. Algum madrugador poderia estar preparando a marmita e saindo para o sítio, pois as vacas não distinguem o domingo dos outros dias. A velha solitária, acordada há muito, estaria esperando as primeiras batidas do sino para a missa das seis. E eu seguia conduzindo minha família para retornar ao ritmo da vida, depois das férias e daquela viagem um tanto aventuresca.

 

Passando pelo trevo de Três Corações reparei num barulho estranho no carro. Naquela época eu entendia os carros. Sabia calibrar vela, regular a marcha lenta, trocar bateria.

 

− Que barulho é este, Paulo – perguntou Raquel, acordando.

 

− Rolamento da roda traseira direita.

 

− É grave?

 

− É. Pode travar.

 

− Ah, meu Deus! Mais esta. Esta viagem não vai acabar nunca. Você mandou fazer revisão antes da viagem?

 

− Mandei, Raquel, olharam freio, correia dentada, regularam o platinado, limparam o carburador, verificaram o óleo da caixa, do setor de direção...

 

− Mas não este rolamento.

 

− Vou reduzir a velocidade e observar. Se o barulho não aumentar talvez dê para chegar.

 

Mas o barulho só aumentava. Nair e Mirtes acordaram e entraram na conversa. Fomos discutindo as alternativas. Paramos para trocar as fraldas das crianças e lhes dar mamadeira. Verifiquei a roda doente. Estava ardendo em febre.

 

− Vamos ter que procurar uma oficina. Qual a próxima cidade?

 

− Santo Antônio do Amparo, disse Raquel, olhando o mapa.

 

Seguimos, sob o protesto do rolamento:

 

− Ram... ram... ram... ram...

 

− Aguenta firme, rolamento. Estamos chegando.

 

Chegando a Santo Antônio do Amparo pouco depois das oito horas, nos indicaram a oficina do Nonô, estava fechada. Batemos na casa ao lado, uma moça simpática nos informou que ele tinha ido à missa. Era Helena, sua esposa. Eles tinham um casal de filhos mais ou menos da idade de nossas crianças. Quando o Nonô chegou, estávamos comendo biscoito de polvilho com café ralo e doce.

 

O rolamento estava em petição de miséria. Depois de lavado e lubrificado, continuava fazendo um barulho infernal.

 

− Espera ai, meu pai deixou um gerador para consertar e acho que o rolamento é igual ao seu.

 

Era igualzinho, SKF 6265. Nonô montou a roda e demos uma volta para testar. Quando voltamos à sua casa, Raquel tinha dado banho nas crianças, feito duas mamadeiras para o Vinícius e visitado o galinheiro. Nair estava carregando o filho do Nonô e Mirtes empurrava a filha numa gangorra amarrada no galho de uma mangueira. Foi uma briga para sairmos sem almoçar, mas tivemos que aceitar uma dúzia de ovos e um saquinho de farinha de “munho” para não fazer desfeita.

 

Apesar do cansaço estávamos animados. Raquel e Mirtes comentavam o filme “A Noviça Rebelde” que tínhamos visto no Rio.

 

− É um filminho interessante – comentou Nair.

 

− Filminho! – protestou Mirtes – foi o melhor filme que já vi na minha vida.

 

− Filme é “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”. Aquilo sim é cinema.

 

− Não te entendo, Nair, você vive metendo o pau no cinema nacional – retrucou Raquel.

 

− A maioria é uma porcaria mesmo, mas este é baseado no Guimarães Rosa e isto faz toda diferença. E você, Paulo, gostou do “Meu Japão Brasileiro”?

 

− Taí, gostei. Não é o melhor Mazzaropi, mas traz pra tela o povo, sua realidade...

 

− O povo! Vocês da esquerda enchem a boca: POVO. Onde estava o povo em 64?

 

− Mas o povo elegeu o Israel Pinheiro em Minas e o Negrão de Lima no Rio – falei procurando mostrar mais convicção do que de fato tinha.

 

− Israel Pinheiro é um grande “revolucionário”! Ele é um conservador, Paulo.

 

− Foi uma vitória da oposição – interveio Raquel.

 

− O que mostra que nem todos estão de acordo com os militares – disse Mirtes, entrando na conversa.

 

− E a traulitada veio em seguida. O AI 2 acabou com a festa. Não adianta, os militares estão no poder e, pelo visto não vão sair tão cedo – retrucou Nair, com veemência e desalento.

 

A discussão continuou com Raquel e Mirtes tentando encontrar motivos de esperança e a Nair destruindo qualquer possibilidade de otimismo.

 

Eu me calei. Aquele assunto me causava mal estar. Os sonhos dos tempos de universidade foram destruídos pelo poder das armas. O povo, destinatário das reformas de base que pretendíamos fazer, não se manifestou e quando o fez foi em apoio aos conservadores. Eu estava casado e tinha dois filhos para criar. Tinha um bom emprego, com amplas perspectivas de sucesso na carreira. A vontade era cuidar da minha vida. Mas... e minhas responsabilidades sociais?

 

Papai uma vez me disse que admirava meu idealismo, minha preocupação com a sociedade e com a situação dos pobres, mas eu deveria cuidar também do meu futuro. Fiquei pensando na sua vida de trabalho e de luta para nos manter, pagar nosso colégio, nos ajudar a atravessar a barreira do vestibular, colaborar conosco no início do casamento. Ele também se preocupava em ajudar os outros, mas de uma forma concreta, na Conferência de São Vicente. De repente o sonho que tive no Rio ficou mais claro: eu estava assumindo o seu lugar assim como o Vinícius um dia assumiria o meu.

 

Vinícius chorou com fome. Cessa tudo, discussão, elucubrações, dilemas morais. As necessidades fisiológicas de um bebê se impõem de forma absoluta.

 

O resto daquela viagem transcorreu sem maiores novidades. Por volta de uma da tarde chegamos finalmente à casa de mamãe em Belo Horizonte, que nos aguardava ansiosa. A primeira coisa que a Raquel fez foi ligar para o Rio. D. Dinorah, sem notícias desde nossa partida, estava desesperada. Foi uma choradeira pelo telefone.

 

Contamos nossa aventura enquanto comíamos o arroz de forno da mamãe, cheio de frango desfiado e banana, coberto de queijo e gratinado. Uma delícia.

 

À tardinha estava conversando com mamãe, ambos sentados na velha cama de casal que ela compartilhara com papai durante tantos anos. Mirtes entrou no quarto pedindo dinheiro para comprar o lanche. Mamãe pegou o paletó de casimira de papai, no mesmo lugar onde ele o pendurava dentro do guarda roupa, tirou de um dos bolsos a surrada carteira de couro e dela o dinheiro solicitado. Meu pai ainda reinava naquela casa.  

 

Bem cedo, no dia seguinte, peguei a estrada para Ipatinga, levei minha família para casa e fui exercer o ofício de PAI. 

 

 

 

 

 



publicado por quemcontaumconto às 00:28
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