Terça-feira, 17 de Julho de 2012

Ildeu Geraldo de Araújo

− Eu fui contra esta greve, Carmelita, desde o começo. 

− Então você votou pelo fim dela?

Vicente coçou a cabeça, um tique que aparecia sempre que estava nervoso.

− Pela continuação.

− Não entendo mais nada. Você é contra a greve, mas vota pela  continuação. Coisa de doido mesmo.

− Coisa de doido é ficar 128 dias de greve e voltar ao trabalho sem ganhar nada.

− O que eu não aguento mais, Vicente, é olhar as latas de mantimentos vazias, é não ter crédito para comprar um mísero litro de leite, é ver você dentro de casa, andando de um lado para outro com essa cara de bezerro desmamado.

− E as costuras?

− Que costura, Vicente! Nesta cidade todos dependem da Usina. Alguém vai mandar fazer alguma roupa se está faltando dinheiro pra comida? Tem um monte de gente me devendo. Eu é que vou manter a casa?

Vicente deixou a mulher falando sozinha e foi pro quintal. Olhou desolado para os canteiros nus da horta, nenhum pé de nada. Pegou a enxada de qualquer jeito e com fúria destruiu o que já não tinha ali.

− Sai do sol, homem, este calor vai te matar.

Vicente foi se acalmando, sentou numa pilha de tijolos e ficou ouvindo a cantoria da sua mulher lá dentro.

− Fred, já terminou o dever?

− Terminei, mãe.

− Então descasca umas batatas.

− Ah, não! Vamos comer batata de novo, mãe? Quando é que vai ter carne nesta casa?

− Quando a greve acabar e seu pai receber. Agradeça a Deus por termos estas batatinhas que sua avó mandou.

Vicente escutou o comentário da mulher, pegou a bicicleta e saiu.

− Aonde você vai, Vicente? Daqui a pouco a comida tá pronta.

Carmelita ficou olhando Vicente se afastar, empurrando cabisbaixo sua velha Caloi.

Voltou uma hora depois, embrulho de jornal debaixo do braço. Carmelita esperava no portão:

− Cadê a bicicleta?

− Vendi.

− Vendeu? E agora? Como você vai pro trabalho?

− Preocupa não, saio mais cedo, vou a pé. Eu me viro.

Carmelita entrou em casa atrás de Vicente. Quando o alcançou puxou-o pelo ombro e o abraçou.

− Vai dar tudo certo, meu bem. Nós já passamos por situações piores e no fim tudo se resolveu.

− Eu sei, Carmelita. Mas fico muito agoniado com esta situação. Não quero deixar faltar nada para você e para o Fred.

− Não faltando você, não está faltando nada – disse Carmelita, fazendo um carinho no rosto do marido.  – Fred, olha o que seu pai trouxe pro almoço.

 



publicado por quemcontaumconto às 23:38
Gostei muito. Acho que o tema tem tudo a ver com você, suas experiências e ideais. Seu jeito de escrever é muito gostoso, parece cinema. Parabéns!!!
Lígia Albuquerque de Araújo a 20 de Julho de 2012 às 13:10

Obrigado Liginha. Gosto muito deste conto.

Gostei muito Sr Ildeu.
E um bom exenplo.
( Carro carregado, e que canta. )
Antonio Kontizas a 26 de Julho de 2012 às 05:35

Ildeu. Concordo com a Liginha. O seu conto fala de voce, da sua experiencia e valores. Gostei muito. Com poucas palavras, nos faz emocionar.
Marisa a 10 de Agosto de 2012 às 09:52

Obrigado pelos comentários.

Dizem que o RS não traz felicidades,mas paga a despeza que ela dá...valeu Ildeu...conto de leitura gostosa...
Manoel Brandão a 29 de Agosto de 2012 às 19:42

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