Sábado, 05 de Janeiro de 2013

29/12/2012

"Puer natus est nobis" (Is.9,5)

Lauro abandonou o "jantar de natal" antes da sobremesa. Detestou a companhia daquelas pessoas que, não tendo aonde ir, se ajuntaram naquele evento gastronômico para celebrar não se sabe bem o que. A chuva tinha cessado no final da tarde. Lauro decidiu caminhar, apesar do perigo que as ruas desertas carregam nos tempos atuais.  À medida que a solidão o envolvia, a tristeza tomou conta dele.  Sempre detestara o natal por causa da alegria fingida, que todos se obrigam sentir. Havia no ar a promessa de um acontecimento extraordinário que nunca ocorria. Ficava sempre decepcionado com os presentes que recebia e com o pouco entusiasmo das pessoas a quem presenteava.  

A eclosão de Elaine em sua vida trouxe uma re-significação para muitas coisas. Nos últimos três anos tinham passado natais maravilhosos em Roma, Paris e, principalmente, em Freiburg, na Alemanha: Natal branco, pinheiros carregados de neve, ruas cheias de luzes e adornos coloridos. Pessoas comprando pinheiros para armar suas árvores. Mas o principal era a intimidade desfrutada com Elaine. Recolhidos no aconchegante apartamento que alugaram na subida da Floresta Negra, passaram o Natal tomando vinho quente, ao pé da lareira. Compreendeu plenamente o sentido da expressão "o calor do lar": uma sensação física de acolhimento da casa aquecida, em contraste com o frio exterior e um sentimento da alma agasalhada pelo carinho da amada. Tinha finalmente um lar que poderia estar em qualquer país, qualquer cidade, desde que ele e Elaine estivessem juntos.

Estava só novamente, como esteve a maior parte de sua vida. Apartado de seu amor, restava-lhe retornar à faina de ganhar dinheiro. Nisto ele era bom, entesourara nos quarenta anos de sua vida uma quantia que precisaria de duzentos para esbanjar. Este sentimento de poder e de sucesso tinha sido suficiente para alimentar sua alma, entretanto naquela noite o buraco deixado pela ausência de Elaine estava se transformando num abismo ameaçador. A saudade, o sentimento de perda, a solidão inescapável, o vazio avassalador irromperam em sua garganta sob a forma de soluço, e em seus olhos como uma lágrima que lhe turvava a vista. Cambaleou pelas ruas como um alucinado.

Um barulho o acordou. Estava sentado no banco de uma praça e o barulho vinha de uma touceira de crótons, no canteiro à sua frente. Numa caixa de papelão, coberta por trapos de pano, alguma coisa se agitava e fazia um som abafado. Lauro se aproximou, removeu os panos e se deparou com uma criança recém-nascida que se debatia em busca da vida. Num impulso apanhou a caixa e colocou-a sobre o banco onde estivera dormindo, retirou a criança com cuidado e a envolveu com seus braços. O choro cessou instantaneamente. Lauro estava preso. Seu gesto de acolher aquela criaturinha era irrevogável.

− Lauro, não vou abrir a porta para você às quatro horas da madrugada. Você está bêbado ou enlouqueceu de vez. 

− É uma emergência, Elaine, e não tenho pra quem apelar.

− Que barulho é este? Parece uma criança chorando.

− É uma menina recém-nascida, que encontrei na rua. Preciso da sua ajuda.

− Que loucura é esta, Lauro. Você encontrou uma criança na rua e a recolheu?

− Abre a porta, Elaine. Ela está com fome. Por favor.

− Procure a polícia, uma creche, um hospital.

− Não posso. Preciso alimentá-la o mais rápido possível. Por favor, Elaine.

Após alguns minutos a porta se abriu. Elaine ajeitava um robe que mais revelava que encobria a beleza de seu corpo. Tomou a criança em seus braços e a embalou.

− Tem leite na geladeira, morne um pouquinho e apanhe uma colherzinha na gaveta.

Elaine balançava a criança tentando fazê-la parar de chorar. Como não conseguia silenciá-la ofereceu-lhe o seio. A menina sugou com força, mas como não encontrasse o alimento recomeçou a choradeira. Lauro trouxe o leite e, usando desajeitadamente a colherzinha, conseguiu colocar o alimento dentro daquela boquinha voraz.

Elaine deitou a menina em sua cama e limpou-a com um algodão embebido em álcool. Enrolou-a numa toalha de banho. O neném dormiu placidamente. Lauro olhava, maravilhado, a mulher desempenhar o ofício materno com um carinho espontâneo, instintivo.

− Como eu pude ser tão estúpido, Elaine. Fugi de você para não lhe dar um filho. Neguei-lhe a realização de um desejo tão legítimo e perdi seu amor e a minha razão de viver.

− Ssssiu, não acorde a neném. Ela agora precisa dormir. Apague a luz.

Saíram para a sala e se sentaram no sofá. Lauro contemplava, ansioso, o rosto de Elaine, que não tinha mais a doçura de poucos instantes atrás. Ela cobriu o rosto com as mãos por alguns momentos, depois encarou Lauro, com raiva:

− Estou tentando entender esta situação maluca. Você some da minha vida e de repente chega, no meio da noite, com uma criança aos berros. E agora vem com essa asneira de ter perdido a razão de viver. Sua razão de viver é você. Seu ego. Seu desejo de dinheiro e de poder. Não dá para entender é porque você não a abandonou lá na praça e caiu fora, sem se envolver.

− Eu quis fazer isso, Elaine, mas não pude. Meu erro foi tomá-la em meus braços.

− E o que você vai fazer agora, Lauro?

− Não sei. Não pensei nas consequências, no dia seguinte.

− Que estranho. Você, tão prático, tão objetivo. Tão ...

− Tão frio, né Elaine, pode falar. Fui pego no contrapé. Não sei explicar.

− A primeira coisa é registrar uma ocorrência na polícia o mais rápido possível.

− Antes eu gostaria de ter certeza de que ela vai ficar bem. Nós poderíamos cuidar dela até depois do Ano Novo.

− Negativo. Você não vai me envolver nessa loucura.

Um choro estridente vindo do quarto soou como um alarme e alterou drasticamente o desenrolar da vida daquelas três pessoas. No hospital, Elaine correu com a criança para a emergência, enquanto Lauro cuidava da burocracia. As próximas horas foram de aflição e angústia até que uma médica sorridente apareceu para acalmá-los.

− Sofia é uma guerreira. Com a gana de viver que ela tem, vai durar cem anos. Vai cuidar do papai e da mamãe na velhice.

Na volta para casa, Elaine, com a criança no colo, se voltou para Lauro:

− Sofia. Você a registrou no hospital como Sofia, nossa filha.

− Naquela emergência achei menos complicado. Será que vai nos trazer problema?

− Sou uma boa advogada, não sou?

Lauro ficou maravilhado ao ver o sorriso voltar ao belo rosto de Elaine. 

 



publicado por quemcontaumconto às 17:55
Ildeu , parabéns pelo bonito conto.
Não me sai da cabeça (e isso veio avivá-lo mais) o nome de Paul Claudel . Era ainda jovem e seminarista, quando li, num afã, L'Annonce faite a Marie . Fez-se em mim uma imagem da força do sobrenatural. A história puxa a linha deste conto que me vem reforçar os alicerces da fé.
Gostaria que muitos outros sentissem, neste mundo tão áspero, a força do que o amor é capaz de construir em nós.
Acredito mesmo que seu conto despertará em muitos um sorriso de luz e fará acontecer na alma de outros a inocência como um selo de fé. É um trabalho bonito, conto bem escrito e tema que nos deixa a pensar - Jair
Jair Moreira a 13 de Janeiro de 2013 às 14:02

Prezado Jair . Seus comentários são sempre um enriquecimento em termos de reflexão . Obrigado. Um abraço. Ildeu

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